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cnb - programa primavera
rosas
innersmile
Fui ontem assistir, no Teatro Camões, ao Programa Primavera, um conjunto de quatro peças não originais (mas pelo menos um delas teve a sua estreia em Portugal) que a Companhia Nacional de Bailado produziu para comemorar o seu 30º aniversário. Coreografias de William Forsythe (The Vertiginous Thrill of Exactitude), Mauro Bigonzetti (Passo Contínuo), Gagik Ismailian (Dualidade_Forma@Ilusão) e Olga Roriz (Treze Gestos de um Corpo). Muito diferentes, mas todas muito idiossincráticas no programa que propõem para a dança contemporânea, quer nas linguagens utilizadas quer na ocupação do espaço cénico.
A peça de Forsythe é um prodígio de precisão e ritmo, como o próprio título indica, propondo uma leitura da linguagem leve e graciosa da dança clássica mas da perspectiva de uma espécie de voracidade que se vai instalando e que vai devorando em crescendo os próprios bailarinos que parecem aprisionados da vertigem da música de Shubert.
Passo Contínuo é um dueto intenso e profundo, com música improvisada e tocada ao vivo, de onde parece estar ausente qualquer ideia figurativa, mas que pretende, ao invés, explorar até ao limite a capacidade de interacção dos corpos dos bailarinos.
Dualidade_Forma@Ilusão é, de certa forma, a mais convencional das propostas apresentadas, o que está longe de ser um defeito. Quer na escolha das músicas, quer na linguagem técnica utilizada, quer na própria ideia coreográfica, quer por fim no modo como a peça se estrutura e vai organizando, é a que nos propõe um olhar mais sedimentado, mais sintético digamos, do que falamos quando falamos, assim em abstracto, de dança contemporânea.
Finalmente a peça de Olga Roriz, uma remontagem de uma produção célebre no Ballet Gulbenkian criada há 20 anos. O que começa por ser fantástico é a possibilidade de olhar para esta coreografia como um momento único de uma modernidade, em que todos os elementos, a música, a cenografia, as luzes, os figurinos, se apresentam como uma proposta, um pouco como se dissessem ‘esta é a nossa visão do que é o futuro do nosso tempo’. E a prova de que essa proposta estava absolutamente válida é que, vinte anos depois, ela mantém a capacidade de nos comover, e de nos mover, de nos fazer levantar da cadeira e entrar no palco em direcção ao futuro das nossas vidas. E quando isso acontece é sempre extraordinário.
Não há nesta peça de Roriz a mínima redundância, cada um dos treze solos é sempre igual e diferente do anterior, a repetição é sempre uma espiral, ou melhor é sempre uma onda que avança, e esse seu movimento é sempre criativo. A música de António Emiliano, as súbitas mudanças de luz, o prodígio de iluminação que são as sombras invertidas (caraças, a magia do teatro é isto, criar a ilusão mesmo ali à frente dos nossos olhos), são parte essencial da experiência emocionante que é Treze Gestos de um Corpo.
E até a ousadia de propor para a mesma coreografia dois elencos, um masculino e outro feminino. Eu assisti ao elenco feminino, e apesar de não conseguir imaginar aquela peça dançada de outra maneira que não seja aquele arrebatamento radical, fico cheio de curiosidade em perceber de que forma (não gratuita, por certo, nada no trabalho de Olga Roriz é gratuito) a opção por um ou outro dos elencos transforma a leitura que fazemos da peça.
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