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man on the moon
rosas
innersmile
No seu livro de memórias, Point to Point Navigation, o escritor Gore Vidal conta como assistiu na televisão à chegada do homem à Lua, na companhia do seu pai, estando este bastante doente, com um cancro de que morreria pouco tempo depois. Gene Vidal, o pai do escritor, tinha sido um dos pioneiros da aviação comercial, tendo fundado ou ajudado a fundar algumas das companhias aéreas americanas que ainda hoje operam. Gore Vidal dá conta dessa espantosa ascensão do homem no tempo de uma vida, desde o momento em que consegue soltar o pé da terra até àquele em que o poisa noutro corpo celeste.
Este trecho do livro de Vidal fez-me pensar nas minhas próprias recordações da triunfal viagem da Apollo 11, em Julho de 1969. Para falar com franqueza, as lembranças são muito ténues. Contribuiu sem dúvida para essa falta de lembrança o facto de só ter visto as famosas imagens de Neil Armstrong aos saltinhos na superfície lunar muito mais tarde, uma vez que não havia tv em Moçambique e por isso não pudemos assistir ao acontecimento em directo.
Os meus pais contam que estavam num espectáculo de Amália Rodrigues quando a cantora anunciou que o homem tinha chegado à Lua. Quanto a mim a única coisa que me lembro com nitidez é de olhar intensamente para o satélite tentando descortinar a presença do homem ou os seus sinais. Lembro-me também de pensar que o facto de a Lua estar na mesmíssima, sem qualquer alteração visível a olho nu, se devia possivelmente ao facto de os astronautas já terem regressado. Quanto à bandeira que lá terão deixado, a razão porque eu não a conseguia ver do jardim da casa da minha infância prendia-se com a possibilidade de terem plantado a bandeira do lado da Lua que não estava voltado para a Terra. Como se vê, eu não era propriamente uma criança brilhante!
Entre 1969 e 1972, doze homens caminharam na Lua. Esse feito absolutamente extraordinário, aliado à circunstância de a iconografia relacionada com as missões lunares da Nasa terem já aquele ar de patine das coisas que passam de moda, fazem com que essa circunstância de ter havido homens a caminhar na Lua pareça uma coisa meia fantástica, um bocado mítica. É bizarro, mas todas as pessoas nascidas depois de 1972 vivem de facto num tempo em que o homem nunca caminhou na Lua, o que faz com que todos nós que já vivíamos nessa altura sejamos uma espécie de sobreviventes de um tempo outro, em que o mundo era diferente. Não sei se tem a ver apenas com eu estar a ficar velho, mas não consigo evitar uma certa sensação de perda relativamente a esse tempo civilizacional. Como se o mundo já tivesse sido um lugar mais feliz.