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quentin e eu
rosas
innersmile
«- How do you foresee yourself after life?
- Oh I hope I should be dead.»




"Domingo, 1 Junho 1997
Home alone com o Jarbas, que dorme ao meu colo. Terminou agora mesmo um documentário na RTP2 sobre Raymond Carver, de quem tenho saudades de ler. Neste momento está a passar, na BBC Prime, 1 ficcionalização da vida de Quentin Crisp, com John Hurt a representar a vida do 'Naked Civil Servant', England's stately homo, nas palavras do próprio. De alguma forma, estas 2 coisas como que definem o perfil de eu, 1 dia, viver sozinho."

Encontrei esta entrada no meu diário pré-livejournal, e acho que é a referência mais antiga que tenho escrita ao Quentin Crisp. No innersmile também já falei dele, mais do que uma vez.
É uma personagem que me fascina, desde há muitos anos. Talvez porque tenha sido em Inglaterra que comecei a perceber que ser homossexual não era uma maldição individual, ao ponto de haver toda uma cultura (para já não falar de um estilo de vida) que tinha a condição sexual como ponto de referência. Talvez porque muito do meu processo pessoal de assumir uma condição homossexual tenha tido o Quentin Crisp, não exactamente como modelo (FYI: não sou uma bicha velha efeminada; sou só uma bicha velha!!), mas talvez mais como guia. Se calhar aprendi com ele a não ter medo, não sei.

Além disso, associo sempre o Quentin Crisp aos meus primeiros contactos com a literatura gay, nomeadamente à Gay’s The Word, uma livraria em Londres que foi a primeira que frequentei e onde comprei os meus primeiros livros sobre o tema. Essa livraria foi o primeiro lugar explicitamente gay que frequentei (muito antes de ter entrado num bar, por exemplo), e é um lugar mais acentuadamente queer do que propriamente gay. Ou seja muito mais como referência cultural do que como estilo de vida.
Desse modo, e por paradoxo que pareça, no meu espírito o Quentin Crisp representa esses tempos pré-pink pound, quando ainda não tinha sido inventado o gay lifestyle. E digo que é um paradoxo porque de certa forma o Quentin Crisp foi uma espécie de gay avant-la-lettre, porque assumia a sua condição homossexual não escondendo os modos efeminados. Aliás, não só não os escondia como organizou a sua persona à volta deles, usando-os ao mesmo tempo como defesa e como arma de arremesso.

Os seus livros são muito divertidos, pelo menos os que li, nomeadamente o Naked Civil Servant, que conta a sua vida em Londres, e o Resident Alien, que são os seus diários nova-iorquinos (o Quentin Crisp depois de velho emigrou para NI). Tenho também um filme baseado no NCS em que o John Hurt faz um papelão, e que é o filme de que falo na entrada de 1997.
Para além dos livros, o Quentin Crisp ainda foi actor em papéis secundários, nomeadamente em Orlando, da Sally Potter, baseado no livro de Virgínia Wolf, e em que ele fazia o papel de… rainha Isabel I.

Mas é curioso porque ainda antes de conhecer o Quentin Crisp e ler os seus livros, eu já conhecia uma canção do Sting, do álbum Nothing Like The Sun, de 1987, que tem precisamente o Quentin Crisp como tema, e que é uma das minhas canções preferidas, Englishman in New York.