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rosas
innersmile
NO DIA EM QUE KURT COBAIN MORREU

Para o Saint-Clair Stockler

«Chatterton, suicidou
Kurt Cobain, suicidou (…)
E eu, puta que pariu, não vou nada bem.»

- Seu Jorge



No dia em que Kurt Cobain morreu eu estava no aeroporto de St. Louis, no estado do Missouri, a fazer escala entre Salt Lake City e Nova Iorque, onde iria apanhar o avião para Lisboa. Não se pode dizer que estivesse com saudades de casa, afinal de contas estava em viagem há apenas duas semanas, e, sobretudo, ainda estava sob o efeito do deslumbramento que tinha sido visitar várias cidades dos Estados Unidos, praticamente de costa a costa, em poucos dias.
A única coisa que conheço de St. Louis é o aeroporto. Também me lembro do arco, mas para ser franco, não tenho a certeza se realmente o vi do ar ou se isso não passou de um sonho.
Eu e Tania esgotámos a imaginação de todas as coisas que poderíamos fazer para ajudar a passar o tempo enquanto esperávamos pela ligação. Passámos várias vezes pelo controlo de segurança, corremos todo o aeroporto, entrámos em todas as lojas, e bebemos tantos cafés quanto era humanamente possível.
No ano em que Kurt Cobain morreu o mundo era, apesar de tudo, um lugar diferente. Os aviões comerciais não eram armas de destruição massiva, e nos aeroportos norte-americanos as famílias podiam ir até à porta do avião despedir-se dos seus filhos que iam estudar para longe, e os namorados podiam ir esperar pelas distantes namoradas de finos cabelos loiros. Não havia polícia nos aeroportos, e os funcionários da segurança deitavam olhares distraídos para o monitor de raios-x quando um passageiro passava apressado de sobretudo a esvoaçar e mala executiva a abarrotar de minutas de contratos ou de apólices de seguros.
Por isso, no dia em que Kurt Cobain morreu, eu e Tania passeávamos à vontade pelo aeroporto de St. Louis, e Tania entrou numa loja que vendia bonés de basebol. Começámos a experimentar bonés em frente ao espelho, e não fazíamos ideia o que responder quando a rapariga simpática de finos cabelos loiros (concerteza haveria algum rapaz à espera dela junto à porta de um avião) nos perguntou qual era o nosso clube. De repente Tania lembrou-se de que tinha deixado a carteira abandonada num sofá da sala de embarque e desatou a correr pelos corredores, passando pelos detectores de metais sem levantar o menor sobressalto aos funcionários da segurança. Eu atirei o boné que tinha na cabeça para cima do balcão, e expliquei atabalhoadamente à rapariga de finos cabelos loiros (num aeroporto de uma cidade qualquer, possivelmente do midwest) que Tania tinha perdido a carteira e desatei a correr atrás dela, empurrando o carrinho das bagagens atestado até à impossibilidade do equilíbrio. Encontrei-a sentada no sofá, respiração ofegante, ar triunfante de carteira na mão. No alto da sua enorme e crespa cabeleira negra, brilhando vermelho, um boné dos Cardinals.

No dia em que Kurt Cobain morreu, S., um adolescente favelado do Rio de Janeiro, saía ao final da tarde das aulas quando, ao atravessar o enorme portão de ferro do ginásio, viu a sua amiga F., olhos pisados e lábios trementes, esperando ansiosa no passeio. Entre soluços, e rebentando num choro convulsivo, F. deu a S. a notícia da morte de Kurt Cobain. S. abraçou-a com força, enxugando as lágrimas que escorriam pelas faces da moça, beijando-a na testa e ao de leve nos lábios húmidos e salgados. Passearam durante horas, assim abraçados, quase sem proferir palavra, andando ao acaso pelas ruas sujas da cidade velha.
Mais tarde, depois de deixar F. no ponto do ônibus, S. começou a subir para casa. Quando lá chegou, já era noite, e a casa estava vazia. A sua mãe ainda iria demorar umas horas até chegar do trabalho, na Zona Sul. S. atirou a sacola com os livros para um canto, dirigiu-se para o seu quarto, trancando a porta atrás de si. Despiu-se, pôs no walkman uma cassete gasta e roufenha dos Nirvana, e deitou-se, de luz apagada. Masturbou-se, até adormecer.

Pelo estore mal corrido entra a luz fraca e cinzenta de uma manhã de domingo de final de Inverno. Luís levanta-se e, sem fazer barulho, dirige-se à casa de banho. Molha o rosto, lava os dentes e sai do quarto, fechando cuidadosamente a porta atrás de si, de forma a que nada perturbe o sono de Sérgio, que dorme pesadamente, corpo atravessado na cama de casal.
Luís passa pela cozinha, liga a máquina de café, e vai-se sentar no chão da sala, de pernas cruzadas, em frente a uma enorme caixa de cartão. São as últimas coisas que trouxe da antiga residência dos pais, antes de a entregar, devoluta, ao agente imobiliário. Ele próprio empacotou o conteúdo desta caixa, com as coisas do seu antigo quarto de solteiro que queria guardar, mas, por alguma razão, a caixa ficara esquecida na garagem. Só na véspera, quando se encontrara com o agente, este lhe lembrou que ainda havia uma caixa de cartão na garagem com aquilo que pareciam ser coisas dele.
Sorvendo o café, Luís começou a tirar ao acaso coisas de dentro da caixa. Bilhetes de concertos, envelopes com fotografias, cadernos rabiscados, t-shirts que assinalavam momentos especiais da adolescência, um troféu desportivo, um livro de versos com uma dedicatória apaixonada. Recordações de viagens: uma pedra negra do vulcão Etna, um cinzeiro rachado de uma cervejaria de Praga, um envelope em papel vegetal com relva do estádio do Boca Juniors, um frasco de vidro com areia de uma praia africana, um boné de basebol roubado num aeroporto americano.
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