March 5th, 2007

rosas

jornal

O jornal Público fez hoje 17 anos. Leio-o desde a longínqua manhã em que comprei o primeiro número na estação de comboios de Rio de Mouro, para ler na viagem até ao Rossio, depois de, se não me engano, dois falsos arranques. O Público é não só o melhor jornal português, mas um óptimo jornal seja qual for o prisma ou a bitola. Não significa, obviamente, que tenha estado sempre de acordo com a linha editorial, nem cego aos erros e aos tropeções.
Há duas coisas que sempre gostei no Público. Uma é a atenção que dedica, e sempre dedicou, à cultura. Quer em termos de noticiário, quer em termos de crítica quer finalmente na organização de edições ou destaques especiais. Por exemplo, no que toca aos suplementos. Logo no arranque, o Público teve um suplemento de livros, que terminou algum tempo depois, e que depois reapareceu com o Mil Folhas. Tenho em relação ao Mil Folhas uma dívida de gratidão, aprendi muito a ler as páginas do suplemento. E tenho pena que tenha desaparecido na recente remodelação: percebo que se calhar não era o mais rentável dos suplementos, mas a relação de bibliofilia que os leitores mantinham com o Mil Folhas era daquelas coisas que não se consegue traduzir em palavras. Só em romances!
A outra coisa que eu sempre gostei no Público foi o facto de ter sempre dedicado uma atenção especial às minorias e à discriminação de que tantas vezes são vítimas na voragem das maiorias democráticas. Particularmente (mas não só, frise-se) àquela minoria que me diz mais respeito, a sexual. O Público deu sempre visibilidade à homossexualidade, tratando-a de forma séria e digna, e sempre denunciou a homofobia, nomeadamente quando ela veio de onde menos se esperaria, ou seja do Estado e dos seus agentes.
Quanto à recente remodelação, foi um daqueles casos em que primeiro se estranhou, mas depois lá se foi entranhando. Custou-me habituar ao novo tipo, que me recordou, pela via da dificuldade, que os meus olhos estão a envelhecer tanto como eu! E lastimo, é evidente, o desaparecimento do Mil Folhas. Mas se a reestruturação do jornal me tirou este supremo prazer semanal, compensou-me com um prazer diário: o novo caderno P2 é um exercício de jornalismo perfeitamente conseguido, a prova de que se podem fazer páginas de magazine com seriedade e interesse, aliando a cultura ao fait-divers e ao entretenimento. É já a minha parte preferida do jornal. A que me faz continuar a ter prazer em ler o Público todos os dias.