March 2nd, 2007

rosas

daqui em diante - olga roriz

Nunca, daquilo que conheço do seu trabalho, Olga Roriz foi tão desassombrada a representar o desvario amoroso, e como, nas suas variadas matizes, esse desvario nos faz percorrer o caminho, doloroso mas irresistível, que vai da elegância e da sofisticação do mundo social civilizado à mais primitiva compulsão. A peça ‘Daqui em Diante’ refaz esse percurso, quadro a quadro, até os bailarinos parecerem estar à beira da desagregação, desfeitos nos elementos mais essenciais, como a terra e a água, para depois mostrar que o caminho de regresso, sendo possível, tem todavia a beleza patética de um baile com marcações rigorosas. A vida continua (‘E la nave va’, como no título de um dos filmes de Fellini), parece dizer o derradeiro quadro da peça.
Por outro lado, nunca também o trabalho de Olga Roriz foi marcado por uma tão pungida tristeza. Naturalmente o humor não está ausente, quer através de uma fina ironia quer através de alguns habituais momentos de burlesco, mas nesta peça de Roriz o amor é sempre um lugar de solidão e desencontro, de vazio e incomunicabilidade. Mesmo, ou sobretudo, quando se tem a ilusão do desvario. Todo o trabalho de Olga Roriz é marcado por um intenso sentido da beleza e por uma procura, ou melhor por um desvelar do erótico (toda a dança é erótica, no sentido em que é sempre um corpo à procura do que está fora dele). Em ‘Daqui em Diante’ há uma sensualidade quase amarga, áspera, desamparada, como se esse erotismo fosse uma ave que não encontra ramo onde pousar.
Quanto ao resto, esta peça tem tudo aquilo a que nos habituámos a amar na dança de Olga Roriz: uma noção de palco rigorosa, uma linguagem sempre mais coreográfica do que técnica, e uma selecção musical que faz com que sempre tenhamos a sensação de que a música é de facto o ponto de origem de toda a dança, de que é sempre a partir de um determinado trecho musical que nasce a ideia da coreografia, como se a dança não fosse senão o sonho da música em ver-se representada pelo corpo.