February 27th, 2007

rosas

Chirgilchin

Do programa:
«Arte ancestral, mágica e repleta de enigmas e mistérios, o throat singing de Tuva representa uma das mais fascinantes formas musicais em vias de extinção.
Baseando a sua arte numa sofisticada técnica em que são explorados os harmónicos vocais, manipulando volume e timbre com a posição da boca e da língua, os representantes desta arte causaram grande impacto no Ocidente pela espectacularidade das suas actuações.»


E então? A música traz sempre consigo a marca de uma geografia. É esse um dos seus milagres, o facto de ser uma linguagem universal e simultaneamente conter, como uma pintura impressiva, a indelével marca de uma paisagem, o som do silêncio que a anima.
É assim que esta música dos Chirgilchin, da república russa de Tuva, traz em si a vastidão desolada da estepe e a vivaz exaltação do fértil vale. Todos os que a ouvimos dominamos na perfeição a sua linguagem, mesmo desconhecendo por completo as palavras. Sabemos, com intuição e sentimento, o seu significado.
Um dos cantores (eram quatro, uma mulher e três homens, estes igualmente instrumentistas) vai apresentando, num inglês hesitante, as canções. Esta canção é sobre cavalos, chamamos-lhe canção para o cavalo. No final, com um sorriso de subtil ironia, desejar-nos-á «good greengrass for your sheep and good gasoline for your car», assim explicitando, com desarmante simplicidade, o programa desta música longínqua.
Duas impressões muito fortes.
Uma, a dos prolongamentos da voz, o modo como a voz se estende, resgatando o tempo e o silêncio, e erigindo-se como uma revelação.
Outra, a da técnica vocal que leva ao limite a voz, para lá do limite, para um lugar onde já não é a voz humana, mas o silvo do vento, o som da natureza, da terra que existiu antes e existe sempre para além do homem.