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the good shepherd
rosas
innersmile
Gostei muito de The Good Shepherd, do Robert de Niro, que precisava apenas de uma realização um pouco mais seca (eu ia escrever eastwoodiana) para ser um grande filme. Mas isto, note-se, não é apoucá-lo, até porque o Eastwood só faz obras-primas e, como disse, gostei muito deste filme de De Niro. E se do ponto de vista narrativo vem-nos à ideia o cinema de Clint Eastwood, quanto ao tema o filme tem pontos de contacto com o cinema de Martin Scorsese, do qual De Niro foi, durante muitos anos, o actor-fétiche. De facto, esta história de um homem que vende a alma ao diabo (e neste caso o diabo é o governo federal dos Estados Unidos da América), sacrifica tudo e todos à sua volta, está sempre cada vez mais só, e tudo em nome de uma noção do dever que lhe é transmitida na infância, por via traumática, pelo pai, esta história, dizia eu, tem muito a ver com as habituais histórias de redenção do cinema de Scorsese, em que os indivíduos descem ao mais profundo inferno de si próprios à procura da salvação.
Mas se o filme nunca perde de vista o drama pessoal do personagem principal, o mais interessante, na minha opinião, é sempre quando dirige o seu olhar para o contexto e a circunstância em que foi criada a CIA (pois é disso que se trata, do modo como foi criada a agência de informação norte-americana) e o modo como vai construindo o personagem certo a essa circunstância. Há um contraponto perfeito entre o desenho psicológico que o filme traça da personagem principal e a sua evolução, por um lado, e o próprio processo de criação de um serviço de inteligência e contra-informação que iria desembocar na criação da CIA.
Para quem cresceu, como eu, nos anos de aço da guerra fria, é absolutamente fascinante esta história de espiões e dissidentes, de propaganda e contra-informação, esta espécie de tango maldito entre os agentes de espionagem das duas super-potências, que travavam pequenas guerras como meio de evitar uma guerra maior.
O filme organiza-se como uma sucessão de flashbacks que vão contando a história pessoal de Edward Wilson e da sua ligação aos homens que fizeram a história da inteligência nos EUA. O plano de actualidade do filme é a operação conhecida por Baía dos Porcos, quando os Estados Unidos tentaram invadir Cuba, em 1961, e cujo fracasso é atribuído a um erro dos serviços de inteligência, uma fuga de informação, e que o filme faz ligar, para aproveitamento dramático, à vida pessoal de do protagonista.
Para além do argumento e da forma sólida e minuciosa como se vai organizando, outro dos trunfos do filme é o casting. De luxo!, sobretudo nos papeis secundários. Impossível não referir o desempenho do Matt Damon apesar de correr o risco de ficar um pouco colado a este tipo de papéis, de tipos muito determinados. Mas a impassibilidade da sua expressão, traída apenas pela intensidade do olhar, dão muito a medida de um personagem que sabe que tem de ser implacável, mesmo quando está consciente do enormíssimo preço que isso custa. Essa expressão impassível e a composição de um corpo cinzento que quase se dissolve na paisagem na sua ânsia de invisibilidade, dão, neste caso, a medida de um grande actor.
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