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amélia muge na culturgest
rosas
innersmile
Incrível, já não ia a um concerto desde Outubro. Felizmente, e graças aos queridíssimos amigos que me ofereceram não tanto o bilhete (mas também!) mas sobretudo a oportunidade, tirei a barriga de misérias e fui ver a apresentação do disco novo da Amélia Muge no auditório da Culturgest.
O concerto seguiu de muito perto o alinhamento de Não Sou Daqui, com uma introdução com o poema de Natália Correia («Não sou daqui das praias da tristeza»), três temas de discos anteriores da Amélia (Ervas-de-cheiro, A Garra do Macaco e Senhorecos, a primeira e a terceira trazendo para o concerto a poesia de Grabato Dias que esta ausente do disco, pela primeira vez) e ainda a obrigatória memória de José Afonso, Chamaram-me Cigano (e o único momento do concerto em que se ouviu a viola, no caso uma braguesa). Já em encore (foram três), ainda oportunidade de ouvir, só com piano, O Nevoeiro.
A apresentação das canções seguiu sempre de perto os arranjos do disco, mas sempre com aquela dose de liberdade que transforma uma apresentação ao vivo numa ocasião única. Esta liberdade é muito intrínseca da maneira de estar em palco da Amélia Muge, particularmente da forma como ela ataca vocalmente as canções, sempre atrás do seu valor fonético e musical (sem, obviamente, descurar a sua função de texto).
O concerto foi acompanhado pelo artista plástico António Jorge Gonçalves que, em palco, ia criando as paisagens visuais que acompanhavam as canções. Esta é outra das riquezas da Amélia Muge, a noção de que um espectáculo e uma coisa especial e completa, global, onde podemos misturar linguagens e referências diversas na tentativa de procurar um produto que seja mais do que simples soma dos seus componentes. Claro que já vi muitos outros concertos em que havia uma componente visual muito forte, e nem sequer estou a falar dos mega-concertos de estádio, mas muito raramente assisti a uma proposta tão rica e tão bem conseguida como neste concerto.
Os músicos em palco foram, para além de AM, Filipe Raposo (pianos), Yuri Daniel (baixos), José Manuel David (sopros e diversos apontamentos sonoros) e Carlos Mil-Homens (percussões), com direcção musical de António José Martins, que fez uma perninha em palco e que, pareceu-me, comandava de fora a manipulação de sons gravados.
Pessoalmente, os meus momentos preferidos foram O Anjo, pela beleza da canção e pela intensidade da solução cénica, Parece Maio, porque adoro esta canção, e Ervas-de-Cheiro, para matar saudades. Mas nos concertos ao vivo há sempre uma revelação e a da noite, para mim, foi a da canção Na Noite Mais Escura, com poema de Ramos Rosa. Foi talvez o momento mais bonito e comovente da noite. E desde o momento em que a ouvi ao vivo, tem sido essa a canção do disco que não me apetece parar de ouvir.


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