?

Log in

No account? Create an account

o anjo
rosas
innersmile
Uma das coisas boas da música popular portuguesa é a frequência com que recorre à poesia e aos grandes poetas nacionais para criar canções. Sirva de exemplo a Amália Rodrigues naquela que é, para mim, a sua fase mais interessante, a dos anos 60, em que a sua voz madura se deu a alguns dos nossos maiores poetas, através do génio musical de Alain Oulman (não é uma ironia deliciosa ter sido um ‘estrangeiro’ a escrever alguns dos maiores fados da segunda metade do século XX, renovando e elevando a qualidade daquela que é a música nacional por excelência, expressão suprema da alma lusa, etc. e tal?). Imagine-se a ousadia que deve ter sido em plenos anos de chumbo, respeitinho é muito bonito, cantar Camões em fado!
Por vezes a música composta para os poemas é tão perfeita que se apropria deles. Há poemas musicados em canções que parecem ter sido escritos para elas, ficam de tal modo colados às canções, que até perdem a sua, como dizermos, primazia literária. Um dos maiores exemplos disso é o poema Perdidamente, da Florbela Espanca, que é impossível dissociar da canção dos Trovante. A canção é lindíssima, tem uma daquelas melodias orelhudas, e a voz do Represas dá-lhe o toque de distinção e carácter, que faz com tudo naquela canção seja original e fundador. De tal forma que, como todas as boas canções populares, se tornou um standard da música portuguesa, que se enriquece, mesmo quando não melhora, com cada nova versão.
A Amélia Muge (ah sim, esta conversa toda era para voltar, de novo, ao disco da Amélia, Não Sou Daqui, que continua a encantar-me, canção a canção) já tinha conseguido um feito do mesmo género, a simbiose perfeita entre música e poema, com a versão de Nevoeiro, de Fernando Pessoa. Ok, nunca foi tão popular, mas atendendo ao facto de se tratar de Fernando Pessoa, e de um dos poemas da Mensagem, o feito ganha ainda mais relevo. Não consigo hoje lembrar-me do poema de Pessoa sem ser através da melodia da Amélia Muge.
E o facto é que o torna a fazer neste disco mais recente, agora com outra enorme poeta da língua portuguesa, Sophia de Mello Breyner. Apesar de já conhecer o poema, a verdade é que ele nos soa como da primeira vez, em mais uma canção inspiradíssima da Amélia Muge, desta feita composta um pouco sob o signo de uma das influência mais detectáveis da música de Amélia, a Laurie Andersen. De quem, de resto, a Amélia já tinha feito, no anterior disco aMonte, uma versão da canção Monkey’s Paw (do álbum Starnge Angels). É mais uma canção belíssima, com um arranjo ousado, feito do cruzamento do acústico com as manipulações electrónicas, e que tem esse condão de fixar as palavras numa determinada frase melódica. Nunca mais conseguiremos (conseguirei, claro) pensar nas palavras de Sophia sem ser através desta musicalidade que a Amélia Muge lhes conferiu.

«O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
e o meu ser liberto enfim florisse,
e um perfeito silêncio me embalasse.»



[É da mais elementar honestidade confessar aqui que o texto que escrevi aqui há dias e a que chamei Fado Imperfeito, apareceu-me quando andava completamente banhado nesta canção, em particular no pretérito imperfeito desta última quadra do poema de Sophia]