February 12th, 2007

rosas

now is the hour

Há uma forte tradição na literatura anglo-americana dos romances de coming-of-age, aqueles que relatam a transição da adolescência para a idade adulta. Claro que à literatura interessam sobretudo as transições mais complicadas, mais forçadas, pois são essas que constituem um desafio, que levantam questões e problemas. Enfim, que merecem o olhar sempre perscrutador mas ao mesmo tempo apaziguador da arte, por ser nelas que de algum modo se plasma o essencial do que é ser humano.
Agora ou Nunca, um romance de Tom Spanbauer, inscreve-se nessa tradição, indo buscar porém contributos a outros géneros (ou sub-géneros) mais ou menos fixados da literatura de língua inglesa, particularmente a norte-americana: os romances de coming out, que são aqueles que testemunham o processo de assumir, perante si e perante os outros, a condição homossexual, e sobretudo os romances on-the-road, que relatam as experiências de deambulação pela paisagem física e humana americana, de que o paradigma é o romance de Jack Kerouac.
O romance de Tom Spanbauer (onde se adivinha uma carga autobiográfica assinalável, mas atenção que especulo) segue a história de Rigby John Klusener, que apanha no preciso momento em que, aos dezassete anos de idade, decide abandonar a casa paterna para ir à boleia para São Francisco, usando, como na canção, e literalmente, 'some flower in your hair'. No caso, um malmequer. E isto depois de, num triste episódio de bulling escolar, já ter sido obrigado a usar uma tulipa espetada no rabo!
Rigby John é filho de um casal de católicos extremistas, vive (e trabalha) numa quinta no sul do estado rural do Idaho (o livro poderia perfeitamente chamar-se my own private Idaho, como o filme de Van Sant), e o livro é um longo flashback da sua vida curta, sobretudo dos dois últimos anos e dos acontecimentos que o levaram a escolher a auto-estrada de caminho para a Califórnia.
Duas ou três coisas tornam este romance irresistível, daqueles que se lêem sempre com emoção e ternura. Primeiro a própria figura do protagonista. O livro está escrito na primeira pessoa, e isso permite-nos acompanhar sempre em close up a mente e a emoção de Rigby John, e somos sempre testemunhas, por vezes tão atónitas como ele próprio, da sua estranha e conturbada, mas sempre humorada, relação com a família, com os amigos, e sobretudo com a vida e consigo próprio.
Outra coisa fascinante é a forte ligação do protagonista e da sua história com a própria essência da paisagem e da mitologia norte-americana. Ao longo do livro sentimos a força do vento, da chuva, do sol e da poeira, sentimos o apelo da great wide open, e sentimos (um dos aspectos mais interessantes do livro) como a América branca cristã e detentora dos meios de produção, vive no terror da sensualidade e da liberdade de todas as Américas indígenas, que subsistem indefectíveis como rolos de palha rolando ao vento pela paisagem árida.

[Este texto é dedicado à minha amiga G, que leu o livro comigo, numa experiência (mais uma) de partilha e cumplicidade que contraria a distância e o vazio]