February 11th, 2007

rosas

2 cds: muge e o classic jazz quartet

O poema de Eugénio Lisboa que pus ontem aqui, do belíssimo livro Matéria Intensa, é um dos poemas que Amélia Muge põe em música no seu mais recente disco Não Sou Daqui. Para além das letras que criou, AM canta ainda neste disco poemas de Hélia Correia, António Ramos Rosa e Sophia de Mello Breyner.
Há uma frase num dos textos de AM que compõem o encarte do disco que diz o seguinte: «Simplificar, continuando a convocar o mundo todo é o desafio que se me afigurou ao momento.» Apesar da frase se referir ao projecto da artista de fazer uma trilogia de que este álbum constituiria a primeira peça, apesar disso esta frase tem o condão de definir com rigor este mais recente trabalho de Amélia Muge.
Por um lado, ele percorre diversos 'tipos' de canção popular, convocando formas típicas da música africana, da brasileira, da europeia e, obviamente, da portuguesa, nas suas mais diversas facetas, com especial relevo para a música popular de cariz mais urbano. O fado não só é directamente citado, como fornece contributos e apontamentos a diversas canções, aliás como já acontecia noutros trabalhos da Amélia.
Por outro lado, essa multiplicidade de referências é apresentada com uma depuração ao nível dos arranjos, simplificando, ou talvez mais rigorosamente, reduzindo as canções a estruturas muitos essenciais, não só recusando o excesso ou o enfeito, mas mais do que isso, apresentando-as no osso, criando verdadeiras sínteses do que são essas diversas formas da música popular. E isto, note-se, sem qualquer efeito folclórico, ou mesmo sem trilhar os caminhos mais habituais da chamada world music. Reconhecemos as canções porque lhes interpretamos a identidade, não porque elas se prestem a classificações ou categorias fáceis. Socorro-me para exemplificar ainda do fado, num dos números mais interessantes do disco, a faixa 'Fadunchinho', com poema de Hélia Correia: apesar da ironia do título, trata-se de um verdadeiro fado, essencialíssimo fado, apesar de não haver no arranjo o mais leve traço daquilo que habitualmente reconhecemos como fado. O mesmo se pode dizer para a africanidade contagiante de 'Parece Maio' (pela via Zeca Afonso, no que constitui mais do que uma homenagem, o verdadeiro incorporar de uma influência).
A verdade é que em Amélia Muge tudo faz sentido. Não só é uma talentosíssima compositora e letrista, como é uma profunda conhecedora da canção popular, nomeadamente da música popular portuguesa (tem de se dominar muito bem a linguagem para a poder assim tão naturalmente recriar), detém um sentido rigoroso da palavra e do texto e um conhecimento profundo da poesia portuguesa, é uma intérprete experiente e segura, que usa a voz ao serviço das canções ao invés de utilizar as canções para show-offs vocais, e, finalmente, tem a noção de que a canção sempre será o resultado do concurso de múltiplos talentos pelo que se rodeia de músicos e colaboradores de primeiríssima qualidade. Aliás, neste aspecto parece ser de elementar justiça salientar que o trabalho musical da Amélia Muge (pelo menos todo o que está para cá da composição) é muito e sempre o resultado da verdadeira parceria com António José Martins.
Gosto muito dos dois primeiros discos da Amélia Muge, mas parece-me que este Não Sou Daqui é o seu melhor álbum. Ou então a Amélia Muge é daquelas artistas em que há sempre um desenvolvimento, um crescimento, um percurso, de tal forma que o seu trabalho mais recente resulta sempre no seu melhor.

Quando comecei a escrever este texto a ideia era alinhavar meia dúzia de ideias a propósito do disco de Amélia Muge, para eventualmente voltar a ele mais tarde. Como sempre saiu um lençol! De qualquer forma, quero registar que para além deste disco, tenho ouvido muito um outro cd, verdadeiramente fabuloso: The Classic Jazz Quartet play Rachmaninov. Uma leitura jazzistica do famoso Concerto n.º 2 para Piano e Orquestra, dominada por uma sofisticação e um bom gosto extremos, que nunca usa a referência à peça clássica para criar efeito fácil ou mera ironia, mas verdadeiramente constrói uma leitura nova e autónoma a partir dessa referência. Formam o CJQ dois consagrados, o pianista Kenny Barron e o baixista Ron Carter, acompanhados por Stefon Harris, em vibrafone e marimbas, e Lewis Nash na bateria.
Penso que a prova de que este trabalho acrescenta realmente ao concerto de Rachmaninov, é que nunca paramos de sentir vontade de intercalar as duas audições, a clássica e esta jazzistica, tentando descobrir as pontes, as ligações, mas também, e sobretudo, as fugas, as diversidades, esse espaço de liberdade que sempre está na definição mais essencial do jazz.
rosas

o dia seguinte

Escrevo este texto quando passam poucos minutos das quatro da tarde de 11 de Fevereiro, e ainda decorre o referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. E faço-o porque me apetece fazer o balanço daquilo que para mim é mais importante neste referendo, sem estar contaminado pela emoção do resultado.
Primeiro o contexto: as campanhas. Do lado de Sim, a campanha pareceu-me rigorosa, exacta, pondo sempre em destaque aquilo que verdadeiramente está em causa neste referendo, que é a despenalização da IVG em determinadas condições. Nada, ou muito pouco, dos exageros do referendo de 98. Paradigmas do Sim, na minha opinião, a escritora Lídia Jorge e o jurista Vital Moreira, que sempre souberam falar com serenidade daquilo que estava aqui em causa, e que era uma questão de direito e de humanismo.
Quanto à campanha do Não, ele reflectiu a imensa contradição de quem acha, e acredito que com sinceridade, que as mulheres que praticam aborto não devem ir para a prisão, mas que é incapaz de ultrapassar o dictat moral, de cariz sobretudo católico, de que o aborto deve ser um crime porque é um pecado. Desta contradição resultou uma campanha hipócrita, manipuladora, em que tudo, do financiamento à ameaça, foi obscuro e decorreu sob o signo do medo.
Esta apreciação do tom das campanhas é importante porque elas traduzem aquilo que, para mim, é o mais importante neste referendo: um verdadeiro teste à maturidade cívica e cultural dos portugueses. Devo confessar que estou pessimista. Acho que a abstenção vai ser superior a 50% e que, em todo o caso, o Não vai ganhar.
Mas se isso acontecer, na minha opinião tal significa que nós, portugueses, ainda não conseguimos pensar pela nossa própria cabeça, e assumir com sentido cívico e de responsabilidade que as decisões importantes da nossa vida somos nós que as tomamos, e não o governo ou a igreja ou os tribunais ou seja quem for. E que só nós estamos em causa e somos chamados à pala pelas consequências dos nossos actos. E que, por isso, numa questão em que a decisão individual se pauta por um estrito critério moral, fazer ou não um aborto apenas a 'mim' diz respeito e só 'eu' serei o julgador da 'minha' decisão.
Se o Não ganhar, significa que nós, portugueses, não nos conseguimos libertar do jugo eclesiástico de que tudo o que não se conforma a um determinado padrão moral imposto, é pecado e como tal deve ser proibido. Mas significa mais, que continuamos a endossar a outros a responsabilidade daquilo que fazemos e daquilo que não conseguimos fazer.
Por isso, para mim, o Não é reaccionário e retrógrado. Significa não um passo atrás, mas a incapacidade de dar um passo em frente. De continuarmos a ser pequenos, medíocres e cobardolas. A optar por tratar da vidinha em vez de viver a vida a sério, de frente, com coragem e ousadia, bebendo o cálice até à última gota.
Se o Sim ganhar, também não significa que somos os melhores, os campeões lá da rua. Significa apenas que estamos a crescer e que, afinal, ainda há lugar para a esperança.

Vou pôr este texto on-line, mas em privado. Mais logo talvez lhe acrescente um edit e ponho-o público.


edit às 20:05: a confirmarem-se as sondagens apresentadas às 20:00 horas, este é, apesar de tudo, apenas o segundo pior resultado possível. Já não é mau. Voltam a ter a palavra os políticos, em particular os deputados. De onde, de resto, ela nunca deveria ter saído.