?

Log in

No account? Create an account

blood diamond
rosas
innersmile
A Blood Diamond, do interessante realizador Edward Zwick, apenas se pode apontar, como principal defeito, o excesso de romanesco, que faz com que o filme tropece com frequência em tudo o que é cliché.
Mas isso não obsta a que o filme consiga um equilíbrio notável entre a componente de filme de acção (com todas as explosões e perseguições no sítio e no momento certos) e a vontade de ser um filme de denúncia, que expõe e defende com eficácia um ponto de vista político.
Na minha opinião o filme é mais conseguido no panorama (triste) que traça da situação do grande continente africano, dilacerado entre as lutas mortais entre grupos e tribos pelo domínio político (e que não olha a meios para conseguir os fins, nomeadamente o do genocídio em massa das populações), e os grandes interesses económicos que para poderem explorar as imensas riquezas do continente (neste caso os diamantes), fomentam todo o tipo de tráfico, e as armas que o sustentam.
O filme devolve na perfeição essa espécie de beco sem saída africano, que caracteriza a África pós-colonial, e em que o desânimo e o sentimento de impotência face à corrupção e à extrema violência só encontram paralelo no enorme e inexplicável fascínio da terra e dos seus povos. Há um sortilégio em África, um chamamento ancestral e intenso, que cada vez mais dificilmente se pressente por entre o sangue dos mortos e o ribombar dos obuses. TIA - this is Africa, é a frase que o filme elege para tão eloquentemente descrever esse estado de espírito permanentemente entre a exaltação e o sobressalto.
Uma coisa que achei espantosa foi a composição da personagem de Danny Archer (kudos para Leonardo DiCaprio, cada vez melhor e maior actor), um retrato perfeito de um african white boy de extracção colonial, típico filho das rodésias e dos apartheids, que fizeram carreira, nas últimas 3 ou 4 décadas, entre o mercenarismo que lutou politicamente contra as independências dos territórios africanos, e, após estas, se colocou ao serviço dos tráficos económicos. O filme toca particularmente a quem tem ou teve experiência africana, e conheceu personagens que encaixam neste retrato. Mesmo eu, que sou da geração que cresceu já depois do fim do colonialismo, conheci alguns destes desenraizados dos impérios.
Para além de DiCaprio, destaque ainda para Djimon Hounsou, um actor com uma presença fortíssima (e belíssima, já agora) que é sempre um prazer ver trabalhar.
Tags:

bobby
rosas
innersmile
Apesar de não ser uma obra-prima (talvez nem mesmo aquilo que habitualmente chamamos ‘um grande filme’), Bobby é um filme curiosíssimo, realizado pelo actor Emílio Estevez. Para aviar já uma das marcas do filme, refira-se que Estevez é, como se sabe, membro de uma das mais proeminentes famílias que marcaram o recente cinema feito em Hollywood, e isso explicará o facto de estarmos perante uma dos mais notáveis (e excitantes) casts que já tivemos oportunidade de ver. Não há (quase) uma única falha neste filme ensemble que vive, por isso, da dispersão de personagens e figuras, e é fantástico como todos os actores conseguem criar, alguns através de breves aparições, verdadeiros characters.
Mas se esta é uma das mais evidentes características do filme, não é a única, nem sequer, na minha opinião, aquela que mais acrescenta interesse ao filme. Este está, julgo eu, na original abordagem a um dos episódios mais marcantes da história dos EUA nos anos 60, e, de facto, desde essa altura e até à actualidade.
No dia das primárias no estado da Califórnia, 4 de Junho de 1968, que poderiam transformar Robert Kennedy, membro da ilustre casa real da política norte-americana e irmão do assassinado presidente Jack Kennedy, no candidato democrático às presidenciais desse ano, o filme acompanha as vidas e os movimentos, as grandezas e as misérias, de um grupo de hóspedes e funcionários do Hotel Ambassador, um dos grandes e míticos hotéis de Los Angeles, palco de cerimónias de Oscars, do famoso Coconut Grove, e sede da campanha de Bob Kennedy. Esse dia iria culminar com a chegada ao hotel do candidato, para o discurso de vitória nas primárias. Não o sabemos ao longo do filme, mas todas essas personagens que vamos acompanhando viriam a ser protagonistas, no final da noite, de um dos momentos mais dramáticos da história dos Estados Unidos.
Para além da irrepreensível reconstituição da época, o filme tem um acentuado cariz político (o clã Sheen/Estevez é reconhecidamente liberal – no sentido americano do termo, ou seja, pró-partido democrático), ao desenhar o retrato de uma América desencantada, atravessada por contradições e chagas dolorosas, num paralelo indesmentível com a América de hoje. De certo modo, o filme apresenta a candidatura de Bob Kennedy como o último momento em que a América tocou a utopia, em que acreditou em si própria, na sua capacidade regeneradora, e, nesse sentido, constitui um apelo à necessidade de a América, quarenta anos depois, precisar urgentemente de alguém que lhe devolva esse sentido de futuro e afirmação.
Tags: