February 1st, 2007

rosas

assis pacheco

Acordei hoje com a rádio a assinalar o 70º aniversário natalício de Fernando Assis Pacheco. Claro que foi o suficiente para me marcar este dia sob o signo do grande escritor e jornalista, que morreu à porta de uma livraria há mais de uma década.
Já falei muitas vezes aqui do FAP, tantas que nem vale a pena pôr links. Basta recordar as suas obras: o romance Trabalhos e Paixões de Benito Praga, a novela Walt (que conta uma história literalmente do Vietnam português), as crónicas desportivas em Memória de Um Craque, as entrevistas (enquanto entrevistador, note-se) reunidas Retratos Falados, e, claro, a poesia, que Fernando Assis Pacheco foi um dos grandes poetas da segunda metade do século XX português: A Musa Irregular, que reúne toda a sua obra anterior, e o assombroso volume já póstumo Respiração Assistida. Suponho, porque FAP era um escritor prolixo e muito disperso, nomeadamente enquanto jornalista, que haja imensos textos seus que poderiam ser editados (estou a lembrar-me de um romance inacabado de que o JL publicou em tempos um capítulo), e que se poderia aproveitar estas datas para as publicar.
Se algum sentido têm as efemérides, é esse, devolver, por um dia, o prazer do reencontro, no caso o de ler ou reler a escrita fabulosa de Fernando Assis Pacheco. Por isso aí ficam dois textos, um dos seus poemas da guerra, do livro Catalabanza, Quilolo e Volta, e uma crónica sobre o escritor José Cardoso Pires.

«MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papeis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.»


.~*~.

«CARDOSO PIRES POR... ASSIS PACHECO

Encontrei-o pela primeira vez em casa da Snu Abecassis, gerente das Publicações Dom Quixote, por ocasião dum cocktail festivo: Ievtuchenko em Lisboa, duas dezenas de convites. O Cardoso Pires estava por lá, com os olhos pequenos a espreitar tudo, e pareceu-me desconfiado. Mas não, não era desconfiança. O Cardoso Pires, basta a gente tocar-lhe ao de leve, faz o contrário das sensitivas e estende as folhas. Daí a um quarto de hora falávamos animadamente. Diga-se de passagem que o cocktail foi um falhanço. Ievtuchenko nasceu para outras coisas, e vá de emborcar tintos sobre tintos (uma reserva «Dão» preciosíssima), com as patas em cima da mesa de pé curto. Personalidades presentes: Fernando Namora, Vergílio Ferreira, José Tengarrinha, Carlos Porto, Lima de Freitas. E o Cardoso Pires, que em termos de sociedade, bom, estamos conversados. Aquilo parecia que não acabava. Ou que não acabava direito. Senti-me então muito mal e fui palmar a garrafa de tinto ao russo, que deu logo por ela
- «Borracho» - disse em semi-castelhano - «tu, borracho! La botella para mí, capito?»
Não havia hipótese. Fiz-me lucas, enchi o copo e desandei. Ora gaita. O Cardoso Pires viu a cena, riu-se logo. Os grandes poetas em transe de desconsideração ficam sumamente ridículos. Pronto, entendíamo-nos em silêncio.
- Você, claro, veio cá por convite?
E o Cardoso Pires:
- Claro. Por convite. Mas isto (ao ouvido, baixo) é uma grande chumbada.
Às dez e pico da noite serviram pratos quentes, especialidades de pastelaria, bolos de bacalhau e croquetes do tamanho de azeitonas - a verdade é para se dizer: estava tudo óptimo, embora para o curto. O Namora roía. O Vergílio roía. O Tengarrinha roía. O Ievtuchenko, por causa do lastro, roía.
- Que diabo, agarrem no homem e chateiem-no, façam-lhe perguntas, dispam-no!
Proposta do Cardoso Pires, logo aceite. A meio dos croquetes comecei a picar o Ievtuchenko. Para aqui, para acolá, como é essa coisa dos livros na Rússia? O escritor sobrevive bem? Andas cá por fora a fazer o quê? E o Voznessenski? E a Akhmadúlina? E o Chklóvski? E o Bulgákov? Chega-vos alguma coisa da literatura chinesa actual? O Steinbeck continua de trombas? Já ouviste falar dos escritores portugueses? Era o fim do cocktail. Daí para diante, com o Cardoso Pires e o Namora a alinhar, discutiu-se muita coisa (em espanhol), o Ievtuchenko segurou-se nos tintos e surgiram alguns bons momentos, como quando li, a instâncias do convidado n.º 1, um poema seu traduzido para francês, que ele comentou. (Toma Assis, olha a importância!). Acabei ouvindo do Cardoso Pires este piropo:
- Assim é que é! Porreiríssimo, pá!
Depois disso, conforme o traçado das ruas de Lisboa, encontrei mais vezes o Cardoso Pires. Considero-o o melhor ficcionista português contemporâneo. Mas nunca lho disse. Com o Cardoso Pires não h chance. Ou pega ou não pega. E a literatura para cada um em particular, no silêncio doméstico. Naquela noite de Maio foi ele, e não o Ievtuchenko, que eu achei de carne e osso.
7.2.68 Fernando Assis Pacheco
PS.: Relido em 1990: nihil obstat. O texto é mauzote mas dá a data e a hora de uma amizade.»