January 27th, 2007

rosas

utz

Não foi há muito tempo que escrevi aqui uma entrada sobre um dos meus escritores preferidos, Bruce Chatwin. Na quinta-feira fui à estante buscar o Utz para emprestar a uma amiga minha. Como depois vamos ter de conversar sobre ele, quis fazer uma releitura rápida para avivar a lembrança. Bem, que livro tão fabuloso. Li de uma assentada 70 das suas mais de 120 páginas, e ainda fui espreitar as últimas, para me lembrar do final: o desenlace dos livros, a forma como eles se resolvem é, juntamente com a primeira frase, um dos momentos decisivos na nossa relação com o livro, determinantes na eventualidade de um livro ficar connosco para sempre.
Utz é a história de Kaspar Joachim Utz, e começa no exacto dia do seu funeral, uma sombria manhã em Praga no final de Inverno do ano de 1974. O ex-barão Utz é um coleccionador de objectos de porcelana Meissen que conseguiu salvaguardar a sua preciosa colecção, e a sua obsessão, à brutalidade da ocupação nazi e à uniformização comunista.
Apesar da brevidade da novela, cada página é riquíssima em história, em informação sobre arte, e sobretudo no retrato que faz de uma certa Europa que ainda existe nas ruas mais anónimas das cidades europeias, sejam elas Praga ou Lisboa. Uma Europa atravessada por convulsões e contradições, pelo sublime e pelo sórdido, pelo belo e pelo patético. O livro retém um certo ambiente de romance de espionagem, aquele clima das histórias que marcaram igualmente a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Mas é isso tudo e muito mais. É igualmente uma história sobre a ética e a moral, a de um homem que só quer que o deixem em paz, que não quer atrair atenções, que contemporiza com deus e com o diabo para enriquecer a sua preciosa colecção, mas que tem ao mesmo tempo uma coragem moral que nunca permite aos outros ultrapassarem o limite daquilo que ele considera ser o justo e o certo. E é ainda uma história sobre essa finíssima linha que separa o fascínio da pura compulsão.
O livro é divertidíssimo, muito bem escrito, é um assombro de ironia e joga muito naquele limite em que nunca sabemos muito bem o que é que é facto histórico ou o que é fruto da mais delirante imaginação.