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ao contrário das ondas
rosas
innersmile
«Nada disso, ele tinha a sua personalidade e até uma cultura literária talvez superior, um espírito crítico acerado, mas nada desejava, nada deseja intensamente, está sempre pronto a abdicar de um projecto, de um concurso, de uma posição na vida.»

«O que lhe falta é o fogo da vida, a vontade, há nele uma espécie de preguiça interior, incapacidade de amar, de querer, de segurar as pessoas e as coisas.»

«Foi sempre muito inseguro, reticente (…) É tão contraditório, na sua amabilidade meio indiferente, na sua maneira de desconversar, de recusar a violência da vida, e ao mesmo tampo tão recto, tão pouco interesseiro em tudo.»

«Saio da conservatória, onde sou cada vez mais uma presença silenciosa (certos dias apenas dou instruções de serviço) e faço por apresentar um sorriso no rosto; e regresso a este silêncio do meu conforto e dos livros, dos discos que ajudam a viver.»

«Às vezes o silêncio apodrece nos meus lábios. Sempre a olhar para dentro, já não tenho horizonte que não seja a tristeza mansa de viver. A pesada alma destas salas de pé alto, cheias de memórias, incomoda-me à noite.»



O livro, Ao Contrário das Ondas, de Urbano Tavares Rodrigues, foi uma prenda de Natal, e uma prenda feliz, porque eu tinha visto o livro, lido sobre ele, e tinha muita vontade de o ler. É um romance breve, pouco mais de cem páginas, que faz um ponto da situação de uma certa geração, a que tem agora pouco mais de sessenta anos que viveu a euforia do sonho, da utopia, e hoje vive o desencanto agridoce de um tempo que sente já não ser exactamente o seu.
E se isto é verdade na política, no país, é-o também na esfera da intimidade. Ao amor, segue-se o divórcio e seguem-se os casos mantidos mais para contrariar a solidão do que para sentir verdadeiramente a vida. As famílias vão-se desagregando entre os tropeções mais ou menos violentos da vida actual.
Não é, está visto, um romance propriamente optimista e feliz! A esta tristeza parda, junta-se, em doses subtis mas inequívocas, um comentário de natureza ideológica, que tem tanto de desabafo como de crítica assumida.

O livro estrutura-se em quatro partes, cada uma dando voz a uma das quatro personagens principais do livro (trata-se de um quadrado amoroso). Na verdade, três das personagens são caracterizadas com muito rigor, e a quarta fica um pouco perdida entre o esboço e a caricatura.
UTR é um mestre, obviamente, e a sua prosa é elegante e fluente. E sobretudo muito segura, sente-se ao longo de todo o livro um domínio absoluto da narrativa, mesmo quando ela parece mais fugidia ou esgarçada.

Gostei muito do livro, achei-o muito actual, ainda que nem sempre o quadro que traça coincide inteiramente com o meu. Mas a desenvoltura da escrita, o domínio da mão, são uma verdadeira aula acerca do que é a literatura e de como escrevê-la.
Mas tudo isso parece ainda curto comparado com o assombro, tão raro e perturbante, de, inesperadamente, entrevermos o nosso reflexo nas páginas de um livro. Como se, de forma desapiedada e não sem um toque de crueldade, fossemos nós que estivéssemos ali a ser dissecados pelo aço da faca do escritor.