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babel
rosas
innersmile
Babel parte de uma premissa um pouco irritante e demasiado simplista: o mundo é uma aldeia global de angústia e sofrimento, de incomunicação e desastre. E a premissa é irritante porque parece inscrever-se num certo ‘folclorismo’ bem intencionado e moralista, que visa limpar e proporcionar algum conforto às consciências de quem acha que os maus são sempre os outros. Não me pareceu ver no filme a tão apregoada teoria do caos (um bater de asas de borboleta em Nova Iorque provoca uma inundação na China), mas antes um apanhar de boleia da recente teoria de que a globalização até seria uma coisa boa se não se desse o caso de ser uma invenção do capitalismo das grandes empresas multinacionais. Pois, é pena, mas é verdade!
E então, o filme é mau? Não, estranhamente, o filme é óptimo! Nesse aspecto até se poderia dizer que se trata de um filme falhado, mas ainda bem, porque o resultado final é muito superior ao que o filme prometia. E o que resgata o filme para a prateleira dos objectos interessantes deve-se exclusivamente ao trabalho de realização. Babel é feito com tanta secura narrativa (com osso e com pó, com vidro e com metal, com luz crua seja ela natural ou artificial) que consegue criar uma tensão dramática formidável, como se nos puxasse para o bordo da cadeira e nos deixasse sempre com as mãos apertadas no braço da cadeira das emoções. É um filme como quando estamos sempre à beira do desespero, as lágrimas empurrando as pálpebras, mas como é muito seco as emoções nunca explodem. É um filme que está sempre à beira de acontecer a catástrofe, mas a única coisa que acontece é que tudo se prolonga até ao momento seguinte, e ao seguinte, até se resolver mais por fruto do acaso do que por acção de qualquer intervenção mais ou menos heróica, mais ou menos redentora. Como a vida, afinal de contas.
E o que é notável é que tudo isso acontece, ou consegue acontecer, sem verdadeiras personagens, dotadas de espessura psicológica, de sombra e contraste. Ou então o facto de o filme não ter verdadeiras personagens é ainda um outro falhanço feliz, porque ajuda a concentrar a atenção apenas no motor dramático do filme.
Esta secura narrativa é ainda mais surpreendente porquanto os filmes anteriores de Iñarritu, Amores Perros e 21 Grams, moviam-se num excesso visual de grande feerismo, com montagens muito sincopadas e sem linearidade (que subsiste neste filme, mas quase não se dá por ela, pela falta de linearidade, de tal forma a narrativa é organizada e objectiva) que resultavam em narrativas muito confusas e até histéricas, cheias de barulho e de ruído.
De todas as histórias que se vão desenvolvendo e cruzando, a mais feliz, ainda que não a mais eficiente (na minha opinião, a da família marroquina dos pastores de cabras é a história melhor contada), é a da teenager japonesa. Sobretudo porque estamos muito às escuras relativamente às motivações ou ao espectro psicológico, resultando numa metáfora perfeita a surdo-mudez da personagem.
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rosas
innersmile
«Preciso de qualquer objecto dos teus, uma coisa de que possas já desfazer-te, mas tenha sido tua, para trazer comigo, nestes dias.
Não me lembro se já te disse que o escritor norte-americano Ernest Hemingway andava com uma pata de coelho na algibeira. Os antepassados de teu pai, os meus, eram mágicos, bruxos, fetichistas.
Deixa-o à porta, eu hei-de vê-lo, querida.
Virei sempre com uma carta para ti. Quando não vier, é porque os sinos de Braga me estavam a ensurdecer, e fui dar uma volta.
Toma lá o orvalho e a rosa, meu amor.»


- Sebastião Alba, in VENTOS DA MINHA ALMA (edições Quasi)