January 16th, 2007

rosas

mala diplomática

Foi literalmente o primeiro livro que comecei a ler este ano: passei o reveillon em casa de (queridíssimos) amigos e como acordei cedo vim para a sala ler o livro que uma dessas amigas me tinha oferecido na véspera. Era um desses livros improváveis, cuja única referência era, na capa, uma frase da Joanna Lumley (a Patsy de Absolutely Fabulous) a dizer que o livro era ‘fabulous’. Bem, comecei a ler e só parei cinquenta páginas depois quando o movimento na casa era já demasiado para eu fazer de conta que não era nada comigo.
Intitula-se Diplomatic Baggage: The Adventures of a Trailing Spouse, é escrito por Brigid Keenan, a mulher de um diplomata da União Europeia, e é uma memória da sua vida enquanto, precisamente, bagagem diplomática: alguém que anda de país em país a reboque da carreira do cônjuge, tentando essa missão impossível de criar uma família e ter uma vida (própria) minimamente interessante quando a vida muda radicalmente de 3 em 3 ou de 4 em 4 anos, e onde o destino imediato pode ser os Barbados ou a Gambia. BK começa a escrever o livro no momento em que chega ao Kazaquistão (já na era pós-Borat) e vai recordando as várias etapas que a trouxeram até aí: Nepal, Etiópia, Trinidad e Tobago, Barbados, Índia, Gambia e Síria.
É uma vida dura: a adaptação a países onde as condições de vida por vezes são muito difíceis (mesmo quando as circunstâncias são as melhores possíveis); chegar a locais onde não se conhece rigorosamente ninguém e ao fim de poucos anos ter de abandonar, provavelmente para sempre, os amigos que entretanto se fizeram; tentar evitar que os filhos se tornem adolescentes fora de controlo e falhar; a necessidade de adaptar e ajustar a nossa vida a culturas muito diversas, desde o sistema educativo até aos hábitos gastronómicos.
Mas o olhar de BK não é miserabilista, antes pelo contrário. É um dos livros mais divertidos que eu li, com um humor que por vezes é um pouco cândido e doméstico, mas a maior parte do tempo é hilariante, irónico (e uma ironia voltada para os próprios, o que nem sempre é frequente), e bordeja aquele toque de insanidade e tontice características do humor inglês. Não sei muito bem como é que se poderão traduzir duas expressões inglesas que se aplicam muito bem a este tipo de humor: witty and foolish.
Ok, por vezes o tom é demasiado paternalista (que lindos os pobrezinhos), outras vezes tem aquela arrogância típica dos ingleses (que acham que o continente europeu está isolado quando há mau tempo no canal), havendo mesmo momentos em que apetece esbofetear a autora por ser uma cabra insensível! Mas tudo isso é sempre feito com tanto humor, com tanta piada, que facilmente lhe perdoamos o que nos irrita pelo bem que nos sabe.
BK foi jornalista antes de ser uma trailing spouse, e por isso escreve com competência. Não é grande literatura, mas é um inglês escorreito, leve e solto que se lê sem qualquer dificuldade. Trata-se, como já disse, essencialmente de um livro de memórias, e honra a tradição, sobretudo britânica, do memorialismo: quando tu achas que aconteceu na tua vida qualquer coisa de extraordinário ou que possa interessar minimamente aos outros, escreve um livro sobre isso. Não se trata de um mero número de vaidade, mas de um acto de partilha de experiências e perspectivas, ou pelo menos um exercício individual de balanço, de pôr em ordem as ideias e as memórias, em suma de pôr a escrita em dia.
E a verdade é que aprendemos sempre com a memória dos outros, mais não seja a prestar atenção não só ao que os outros olham mas ao modo como o fazem. Para além de todo o divertimento que eu retirei da leitura deste livro, houve uma coisa que ele me deu: uma enorme vontade de conhecer Damasco. Brigid Keenan apaixonou-se profundamente pela Síria e pela sua capital. E transmite tão bem esse amor e esse deslumbramento (apesar de ele ter acabado de forma no mínimo complicada), que eu fiquei completamente contagiado.