?

Log in

No account? Create an account

flags of our father
rosas
innersmile
O que sempre impressiona nos filmes de Clint Eastwood é a forma sublime como o realizador consegue captar a espessura da alma humana. Comovemo-nos com os seus filmes porque reconhecemos nas suas personagens pessoas iguais a nós, seres misteriosos em que aquilo que não é dito, ou mostrado, é sempre mais importante do que o que se explicita. Personagens complexas, dotadas de sentimentos e emoções, como as nossas, contraditórias, que vivem as suas vidas da forma cega e tacteante como nós levamos as nossas. Que Clint é um mestre prova-o o facto de toda esta complexidade parecer extremamente simples, num cinema que pega na história e nunca a larga, sempre a levá-la para diante, sempre a fazê-la progredir, reduzindo o dispositivo narrativo sempre a uma espécie de mínimo denominador essencial. Tudo é osso, nervo, músculo, não há gangas nem gorduras.
Flags of Our Fathers, sabe-se, conta a história verídica da famosa fotografia tirada durante o assalto à ilha de Iwo Jima durante a batalha do Pacífico, no período final da Segunda Grande Guerra. Estou a escrever de cabeça, e não me lembro se Eastwood terá feito outro filme de guerra, penso que não. Mas, claro, o cinema de Eastwood está bem acima da lógica dos géneros, não porque ele não ceda a essa lógica (antes pelo contrário, o gozo de fazer um filme de género está nisso mesmo, na utilização das linguagens e técnicas respectivas), mas porque o que Clint Eastwood filma é sempre essa complexidade, essa espessura que referi anteriormente.
Este filme faz parte de um díptico juntamente com Letters from Iwo Jima (que estreia para o mês que vem), penso que é este o título, que Clint Eastwwod filmou, contando a história da perspectiva dos japoneses, os outros contendores da batalha. De certa forma, este facto sublinha que as razões porque Eastwood faz agora estes filmes (segundo julgo saber, uma proposta de Steven Spielberg, que produziu o filme) têm um inegável fundo político. Em Flags of Our Fathers, Clint Eastwood não quer deixar de fazer um comentário ao facto de a América ser um país em guerra, e, como sempre que estamos em guerra, a única contagem possível é a dos mortos, a dos feridos, a da dor e a da perda. Por isso este filme tem um indesmentível sabor a amargo na denúncia que faz dos mecanismos do heroísmo e da propaganda, que tentam sempre iludir a tragédia essencial: a de que um morto é sempre alguém, é sempre filho de alguém, amigo de alguém. Com a eficácia que lhe é própria, e uma dureza que impõe respeito, Clint Eastwood parece dizer que é tempo de a América se lembrar de que a ferida que a guerra provoca é irreparável e inesquecível, como a inominável visão do horror que vimos infringido a um amigo no denso abismo de um buraco no chão.

Não consigo falar deste filme sem invocar uma recordação pessoal. Em 1994 fui pela primeira vez aos Estados Unidos, numa viagem em grupo de carácter profissional. Visitámos várias cidades, entre elas Washington. Chegámos a DC à noite. O dia seguinte foi passado em visita e contactos no Capitólio. À noite, depois do jantar, fizemos um tour de autocarro pelos principais monumentos de cidade, entre eles, na outra margem do Potomac, o monumento a Iwo Jima, o cemitério de Arlington e o Pentágono. Apesar do autocarro nem sequer ter parado, mas apenas reduzido a velocidade, fiquei impressionado com aquele conjunto escultórico, que eu, ou não conhecia, ou nunca tinha prestado grande atenção. Na manhã seguinte, baldei-me à visita (a uma das maiores universidades americanas), e, sozinho, meti-me no metro e fui à procura do Iwo Jima. São as fotografias que tirei nessa manhã que fui buscar e que estão aqui à minha frente.
Depois de visitar o monumento, atravessei a rua e fui visitar o cemitério de Arlington. Assisti ao render da guarda no Soldado Desconhecido, e fui ver os túmulos do presidente Kennedy, e, mais ao lado, o do seu irmão, o senador Bob Kennedy, o único em todo o cemitério que tem uma cruz. Depois atravessei a pé o Potomac, fui ver o monumento ao presidente Lincoln, e fui ver um dos monumentos mais impressionantes que já vi, o dos mortos no Vietname, uma parede de mármore negro espelhado, onde estão inscritos em relevo os nomes de todos os soldados mortos no conflito. Quando nos pomos de frente para o muro, é a nossa imagem que se reflecte por entre a letra miúda de milhares de nomes. Comovi-me com as famílias que visitavam o monumento, com os miúdos às cavalitas dos pais a rasparem com papel e lápis por cima de um nome de forma a ele ficar impresso.
Depois, desci o Mall, numa manhã ensolarada de um Fevereiro gélido, e o resto do dia desfez-se em visitas a museus, caminhadas intermináveis, e finalmente o reencontro com o resto da excursão para, se não estou em erro, irmos jantar à embaixada de Portugal. Mas foi nesse dia, nessa exacta manhã, a passear sozinho entre o monumento a Iwo Jima e o outro aos mortos do Vietname, que me apaixonei pela nação americana e pelo seu povo. Até hoje.
Tags:

flag raising
rosas
innersmile
Foi um momento especial.
Normalmente, no fim do filme, mal começa a passar o genérico, acendem-se tenuemente as luzes da sala e as pessoas levantam-se de imediato e começam a sair da sala. Confesso que já fui mais espectador de genéricos finais do que sou actualmente. Agora só fico até ao final quando estou ainda meio enlevado no filme e quero prolongar a coisa até ao limite possível. E quando isso acontece, normalmente fico sozinho na sala, muitas vezes a partilhar o espaço com as senhoras que vão fazer a limpeza entre sessões.
Mas ontem foi diferente. Mal começou a passar o genérico as pessoas levantaram-se. Houve meia dúzia delas que saíram logo da sala. Mas parece que houve ali qualquer coisa que de forma inesperada tenha agarrado a atenção das pessoas. Talvez a música, composta pelo próprio Clint Eastwood. Talvez a curiosidade, motivada pelas fotografias dos verdadeiros protagonistas da batalha de Iwo Jima, que passavam com o nome dos seus intérpretes no filme. Ao longo de todo o genérico foram passando fotos de época. E a música, irresistível, hipnótica, de Eastwood.
Ou talvez tenha sido o próprio confronto dos espectadores com as suas próprias emoções, que os tenha retido. A necessidade de permanecerem mais um pouco em contacto com a pele macia e morna (como a pele da face depois do choro) dos seus próprios sentimentos.
Eu estava sentado no alto, numa das últimas filas. E fiquei também sentado, assombrado com o inusitado da situação: a sala em penumbra, as pessoas como que suspensas, em paralítico, nos gestos de vestir os agasalhos ou descer a escadaria, paradas, olhos fixos no ecrã.