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(no subject)
rosas
innersmile
REPARTIÇÃO

Fica-te, mundo, cada vez a pior, é o provérbio para hoje. Não sei onde fui buscar esta inoportuna sensação de perda. Lá fora, no jardim, é já primavera, entra pelas janelas o cheiro matinal da relva húmida, há pequenas explosões de cores na tela diáfana das cortinas. Pergunto-me, uma e outra vez, o que é que muda, mas a angústia que me seca a garganta não tem cor ou cheiro. Alguém, do outro lado da porta de vidro, diz em voz alta, falando de si: é a nostalgia. Aceito, mas nostalgia de quê é que eu precisava de saber para continuar o meu trabalho.
Sai nas notícias. Não propriamente a abrir os telejornais, ou nas primeiras páginas dos jornais, mas lá vem, disfarçada, discreta numa coluna baixa de uma página do interior. Mudámos. Vamos ser outros. E estamos regozijados com a mudança, dizem. Eu faço-me distraído, e vou virando as páginas dos enormes cadernos, que preencho a tinta permanente, em letra miúda e certa. Escrevo nomes, ou nem isso, vou apontando sinais, marcas, a memória de outros dias, dos dedos que cruzaram essas páginas.
Do outro lado do edifício (estava a pensar: do outro lado do mundo) chegam os ruídos abafados das manifestações de alegria. Há reuniões à porta fechada e os telefones não param. Trocam-se cumprimentos, fazem-se votos, prometem-se recompensas e honrarias. Não posso disfarçar, é certo que sinto uma certa melancolia. À luz cintilante dos lustres, não há futuro que não prometa brilho. Ao longe, o estampido dos canhões confunde-se com o estalar das rolhas das garrafas de champanhe. E a irresponsável euforia da ilusão inebria e exalta. O ciúme é uma dor fina que se estende da mão ao cotovelo, e, como já provei esses vapores, não posso negar um certo amargor de ressentimento. Somos sempre mais tristes quando as festas são dos outros.
Mas não é isso que me provoca este peso húmido nos olhos. Sei que tenho ciúmes do que não existe, e por isso tento domesticar o sentimento. Mas o que me atropela é o vazio, são as paredes despidas do futuro, é o vago mal-estar da minha ausência. Muda-se, e pronto. Não se cura de saber quem apanhará os cacos dos dias, de todos estes minuciosos dias que fomos preenchendo, caneta de tinta permanente numa mão, papel mata-borrão na outra, os olhos sempre postos na volátil vertigem do calendário.
Fica-te, mundo. Visto o casaco, apago as luzes, e vou de fim-de-semana.
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