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rua direita
rosas
innersmile
Cheguei a Coimbra no início do mês de Novembro de 1977. Vinha revoltadíssimo, porque estava a estudar num liceu na Amadora, perto de Lisboa, tinha começado a fazer amigos depois de um verão passado praticamente sozinho (ou pelo menos sem amigos da minha idade, amizades feitas por mim e não herdadas por via familiar), e além de estar a gostar muito da fase que estava a viver, não me apetecia nada mudar e ter de recomeçar tudo de novo (descobri, já depois de velho, que esta reacção à mudança que em mim é tão típica tem sobretudo a ver com a preguiça e com o stress). Deve ter sido sobretudo por isso que detestei Coimbra e que ainda hoje não tenho uma relação muito pacífica com a cidade.

Como vinha contrariado, praticamente durante o mês de Novembro não pus os pés no liceu. Ia passando por lá para saber como estava a decorrer o processo de transferência, mas enquanto não ficou tudo regularizado não assisti a uma única aula. Era a minha forma adolescente de mostrar à sociedade (sobretudo a familiar) a minha rebeldia.

Como vivia no Calhabé, praticamente ao lado do sítio onde vivo actualmente, todos os dias desse mês de Novembro (e não só, claro) eu apanhava um trolley, o 5, ao lado da Igreja de São José, descia na Praça 8 de Maio, em frente à Igreja de Santa Cruz (na altura ainda se circulava de carro na Ferreira Borges e na Visconde da Luz), e ia a pé até ao local de trabalho dos meus pais, no Arnado. Nos primeiros dias pelo caminho que os meus pais me indicaram, a Rua Sofia, mas logo descobri que era muito mais rápido se fosse pela Rua Direita.

A Rua Direita provocava-me um misto de fascínio e repulsa. Era uma rua feia, velha, suja, sombria, de casas a cair e tascas mal-cheirosas. Demorei algum tempo até conseguir ganhar a coragem necessária para entrar numa tasca da Rua Direita, sob o pretexto de comprar cigarros (ainda como expressão da minha rebeldia eu tinha trocado o hábito ocasional de fanar cigarros aos meus pais pelo outro mais regular de comprar tabaco com o magríssimo dinheiro que eles me davam – cigarros e cinema eram mesmo as únicas coisas que mereciam que eu gastasse dinheiro). Mas na realidade o que mais me atraía era o facto de a Rua Direita ser generalizadamente, na época, identificada como o lugar de prostituição por excelência da cidade.

Foram dias, semanas, meses, direi mesmo anos, a percorrer a Rua Direita sempre com a expectativa de entrever essa coisa misteriosa, sórdida mas irresistível do negócio do sexo. Nunca vislumbrei nada que tivesse a ver com prostituição. Havia putas no Largo do Poço do Bispo, encostadas à montra da loja dos cafés. Havia putas (e ainda há) no Largo das Ameias. Havia putas no Bota-Abaixo (e ainda há, mas agora junto à Avenida, antes era na rua interior, onde ficavam as pensões). Mas nunca vi putas na Rua Direita.

Há muitos anos que não passo na Rua Direita. Muitos mesmo. Tantos que nem consigo precisar a última vez que lá passei. Tantos que a minha memória já só guarda da Rua Direita a mesma impressão vaga daquelas cidades estrangeiras onde passámos de maneira intensa mas apressada: viva, mas completamente indefinida.

Li hoje no jornal que está praticamente concluído o processo de desalojamento da Rua Direita para construção de um corredor para o (sebastianico) metro de superfície. É o progresso, obviamente. Em breve, já nem os fantasmas das inexistentes putas habitarão as escuras paredes das tascas de ramo de loureiro à porta.

(no subject)
rosas
innersmile
Na edição de Sábado passado, o Mil Folhas, suplemento do jornal Público dedicado aos livros e à literatura, publicou as escolhas literárias de 2006 de escritores, críticos literários e outras pessoas que se destacaram no plano da edição e da literatura. Contrariando um pouco as regras do jogo, que pedem a escolha de 5 livros, a Clara Pinto Correia indicou dois livros (já agora, Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, de Flannery O’Connor, traduzido pela própria CPC, e Os 120 Dias de Sodoma, do Marquês de Sade), e depois acrescenta o seguinte comentário:

«Não há nada que chegue à luxúria da boa literatura. Nem o bom cinema. Nem as melhores drogas psicadélicas. Nem o Miles Davis do "Birth of Cool", e isso já é dizer muito.»

Melhor que Miles Davis!? Realmente, não se pode dizer muito melhor o prazer que um livro pode proporcionar.