January 5th, 2007

rosas

apocalypto

Nunca fui grande fã do Mel Gibson, apesar de ele ter feito, no início da carreira, alguns filmes de que gostei muito, nomeadamente aquele que é um dos meus filmes preferidos, The Year of Living Dangerously, do Peter Weir, e que valeu um Oscar à Linda Hunt, sendo a primeira vez que um prémio da Academia foi entregue a uma mulher a fazer um papel de homem. A Linda Hunt é uma pequena grande actriz, cujo brilhantismo ainda é mais acentuado pelo facto de a sua presença no ecrã ser tão rara.
Mas voltando ao Mel Gibson, e à sua carreira de realizador, confesso que não dei demasiada atenção ao Braveheart, tenho ideia de The Man Without a Face ser um filme interessante, e não vi The Passion of Christ. Mas estava cheio de vontade de ver este Apocalypto, tanto que fui a correr no dia da estreia. A razão da curiosidade era um pouco national geographic, ou seja, era sobretudo a de ver representada a civilização Maia, em que o filme seria uma espécie de complemento da minha visita aos santuários Maias feita em Abril do ano passado.
E nesse aspecto não fiquei nada decepcionado. Dando de barato que se trata de um filme de ficção, e não de uma figuração documentarista e histórica, o filme de Gibson dá uma ideia bastante rica do que poderá ter sido o mundo dos Maias, do modo como funcionaria o tecido social, do aspecto religioso, do quotidiano, da cultura em geral e até desse preciosismo (que Gibson repete) de o filme ser falado na língua Maia. O filme correspondeu um pouco à ideia que eu tinha da civilização Maia, em função quer da visita que fiz ao Yucatão quer daquilo que fui lendo, nomeadamente quanto aos aspectos mais violentos, e mesmo cruéis, das cerimónias religiosas.
O filme centra-se num momento decisivo da história da civilização Maia, em que um processo de decadência, a partir de dentro, foi acelerado pela chegada dos europeus, e de que resultou a sua extinção rápida. A tese do filme é a de que o que provocou essa decadência foi uma acentuada preponderância do elemento religioso, e do militar que o sustém, representados no file por uma violência extrema e sanguinária, que matou aquilo que seria a essência do modo de viver das populações, numa reedição do mito do bom selvagem. Não sei se esta tese corresponde à realidade. Mas também não é isso que importa para a economia do filme.
A questão é que Mel Gibson não se limita a contar uma história, e a fazê-lo com grande exuberância de meios. O problema, na minha opinião, é que investe demasiado no valor simbólico da história que tem para contar. Por um lado, carregando demasiado no próprio destino das personagens, que perdem o valor de protagonistas, de heróis, para ganharem quase uma dimensão de totens de mundos que se confrontam. Com efeito, a partir de certa altura torna-se demasiado evidente que a fuga para a liberdade de Pé-de-Jaguar já não é uma mera luta individual pela sobrevivência mas uma desesperada e encarniçada tentativa de sobrevivência de uma civilização, de um modo de vida. E não há nada que mate mais uma história do que a ausência de protagonistas, do que a transformação de heróis em símbolos. Esta essencialidade do herói, dum determinado herói em particular, daquele e não de outro, é, como se sabe, uma lição da narrativa de aventuras, que todos aprendemos desde Homero.
Por outro lado, é irresistível que este valor simbólico ganhe uma carga de alegoria, em que se pretende que a história que se conta funcione como metáfora dos tempos que correm. O que por si não teria nada de mal, mas a questão é que acentua ainda mais essa carga simbólica do filme, que, aos poucos, vai perdendo qualquer rastro da narrativa.
Em resultado, a exuberância de meios de que falei transforma-se sobretudo em pomposidade, em grandiloquência. Que, no último terço do filme, se arrasta quase sem qualquer vestígio de emoção. Triste final para a personagem simpática e apesar de tudo cativante que é Pé-de-Jaguar.