December 27th, 2006

rosas

os anjos e o demónio

Durante estes quatro dias de pausa natalícia, todo o tempo que não estive a comer rabanadas, coscorões, sonhos ou bolo-rei, passei-o enfiado nas duas únicas divisões da minha casa que têm aquecimento: na sala, a ver episódios da segunda série de Lost, ou enfiado na cama a ler Os Anjos de Gabriel, de Francisco Corrêa.

Quanto à série, nada a acrescentar ao que já disse aqui no innersmile a propósito da primeira temporada. Quanto ao livro, é um objecto muito interessante, apesar de não ser um grande livro, nem ao nível da narrativa nem, muito menos, ao nível da linguagem. Apesar de se apresentar como um romance, trata-se de um evidente ensaio autobiográfico, uma espécie de ponto da situação (um ‘pds’, como eu aprendi nas férias) de uma vida por quem está a chegar à meia-idade. O que torna o livro interessante é que a personagem principal, o narrador, é um homossexual sem problemas existenciais, assumido e confortavelmente instalado na vida, e acabam por passar pelas páginas de Os Anjos de Gabriel muitas das experiências e dos problemas e dos prazeres e das vivências dos homossexuais. E isto apesar de o livro se assumir principalmente como um romance de amor (e também de amores). O estilo é um pouco hiperbólico para o meu gosto, há páginas de declarações de amor que têm aquele toque de prosa poética que torna, como aliás se diz no livro parafraseando Pessoa, ridículas todas as cartas de amor, a maior parte dos diálogos são inacreditáveis (uma fala num diálogo não se confunde com uma tirada, sobretudo se for grandiloquente e pomposa). Parece-me todavia que ainda assim está alguns pontos acima da chamada literatura light. E pelo interesse das experiências e das vivências relatadas, poderá constituir um bom desafio de leitura.

Um acontecimento que marcou a quadra foi a morte do James Brown no próprio dia de Natal. Chamou-me a atenção a quantidade de referências ao acontecimento aqui no livejournal, e por parte de pessoas muito diferentes, com gostos e referências muito diversas. O que dá bem mostra do peso e do papel de Brown na música popular. Com efeito, pode-se gostar mais dos Beattles ou dos Rolling Stones ou dos Ramones, mas é impossível ficar imune ao som e à energia da música de James Brown. É impossível não ser tocado por essa vibração, não a sentir, não ter vontade de mexer o corpo, até mais do que de dançar. Ao contrário do que acontece com muitos outros músicos, James Brown não era tanto uma referência, ou um símbolo. Era, ele próprio, a incorporação da energia, do tesão (do mojo, como dizia o Austin Powers), que a música é capaz de transportar e que consegue dar vida mesmo ao mais dolente dos corpos.