December 26th, 2006

rosas

20,13

Apesar da história trágica que relata (tanto mais que corresponde a uma realidade recente da história de Portugal que custou milhares de vidas humanas), pode-se dizer que 20,13, a mais recente obra de Joaquim Leitão, é um filme imensamente feliz. Não faz sentido dizer que é o melhor filme português dos últimos anos, mas por uma vez um filme não tem nem de se refugiar na caução artística do cinema de autor, nem de fazer humilhantes malabarismos de cedência ao mínimo denominador comum do gosto popular, para tentar afirmar-se enquanto obra de cinema marcada pela autoria de um realizador e que pretende chegar com eficácia ao público de cinema.
Tudo neste filme faz sentido. Em primeiro lugar o contexto histórico em que a história se passa, que o filme sabe recriar sem se embasbacar com os prodígios das recriações de época, nem se perder em explicações exteriores à necessidade da acção. Com efeito o filme fornece pistas e informações sobre a realidade da guerra colonial portuguesa, mas fá-lo com extremo sentido da economia narrativa.
Depois, e apesar do risco que sempre constitui construir uma narrativa que se desenvolva num período de tempo muito limitado (no caso, as 24 horas que vão da manhã da véspera à manhã do dia de Natal de 1969), o filme consegue esse feito raro no cinema português que é ter tensão dramática, ter acontecimentos que fazem a narrativa desenvolver-se e progredir, e ter personagens com espessura psicológica por cujo destino nos interessamos verdadeiramente. Mesmo a facilidade de algumas soluções, nomeadamente a do final, não compromete a eficácia do filme. 20,13 cumpre, com desenvoltura, aquilo que deve ser a regra do cinema (de ficção, mas na realidade de qualquer cinema): ter uma boa história para contar, e contá-la bem.
Ainda regressando às personagens, o filme apresenta-nos outra raridade no panorama do cinema nacional: a existência de um herói, um herói consistente, que tem drama, que carrega a história, que determina e é determinado pelos eventos e pelas circunstâncias que o envolvem, e no qual acreditamos com aquela fé que apenas somos capazes de depositar nos heróis de ficção. Falo, naturalmente, do Alferes Gaio, desempenhado por Marco de Almeida. Mas se a figura do Alferes é o motor central desta narrativa, mesmo não sendo ele o protagonista dos eventos que a constituem, há toda uma galeria de personagens (o capitão Costa, o capelão, o médico, as duas personagens femininas, o tenente-coronel, o enfermeiro Vicente), bem como toda uma galeria de personagens secundários (os soldados da companhia: o VCC, o Larga Larga, o Badagaio, os dois Montemores, o Viegas, oAlferes Pizarro, o sargento Ferreirinha, etc) que são muito bem construídos, mas sobretudo que são sempre essências ao filme, quer porque determinam a trama narrativa, quer porque constituem a teia, o pano de fundo humano, no qual a história se desenvolve. Como se sabe, o deus da narrativa ficcional está nos pormenores, nos pequeníssimos detalhes que, mesmo quando não são parte da história, são indispensáveis para a tornar verosímil, e também neste aspecto o filme de Joaquim Leitão é uma aposta vencedora.
Como disse no princípio, não faz muito sentido dizer que se trata do melhor filme português dos últimos anos. Apesar de, na minha opinião, isso ser provavelmente verdade.         


rosas

hoje há conquilhas

Acho que já escrevi uma vez aqui no livejournal (há muito muito tempo, como cantava o outro) que alguns dos discos da minha vida foram esses LP’s que comprei entre finais dos anos 70 e princípios dos anos 80. O dinheiro para comprar discos era muito pouco, não havia os métodos de reprodução e piratagem que há hoje, e por isso os discos que se compravam tinham de ser muito bem escolhidos. Ou por essa razão, ou mais provavelmente porque os ouvia tanto, mas tanto, e com tanta atenção, foram esses os discos que ficaram mais definitivamente na minha bagagem afectiva e aos quais regresso frequentemente.
Um desses LP´s foi o álbum da Banda do Casaco, Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos. É um disco a que o tempo deu alguma aura mítica, sobretudo porque, reza a história, ou a lenda, as masters do disco desapareceram e por isso tudo o que restava eram os exemplares em vinil que sobreviveram da sua edição original. E uma dessas raridades era minha, até há pouco mais de um ano quando decidi oferece-la a um dos meus maiores amigos, a quem até lhe mordiam os dedos por não o ter na sua colecção de discos em vinil. O meu amigo decidiu agora mascarar-se de menino Jesus, e ofereceu-me a edição do disco em cd, fruto de um trabalho de edição a partir de vários exemplares em vinil, e que eu nem sabia que tinha sido reeditado. Foi, não desfazendo, a minha prenda deste Natal.  
A verdade é que eu já não ouvia o disco há muitos anos, mas, mercê dessas infinitas audições, tinha o álbum praticamente intacto na minha memória. Quase como, se tivesse um botão de play no meu cérebro e capacidade de concentração bastante, o pudesse tocar todo só de memória. As melodias, as letras, as orquestrações, as vozes.
E o que é espantoso é quando o fui ouvir agora de novo, ao mesmo tempo que o reconhecia passo a passo, era quase como se o estivesse a ouvir pela primeira vez. O disco tem uma frescura, um efeito de novidade, um poder de síntese, que são notáveis. O cruzamento entre a música popular e aquilo que por facilidade de expressão poderemos chamar de música moderna (chamar-lhe apenas rock seria um pouco limitativo) nunca foi tão perfeito e conseguido. A verdade é que Hoje Há Conquilhas é um disco genial. Mas é-o porque se o analisarmos bem vemos que é profundamente simples na sua concepção e na sua realização. Não é uma obra que se pretende complexa, difícil, inacessível. As letras são simples, escritas por um tipo absolutamente normal, e não por nenhum génio poético. As melodias são simples, muito devedoras das melodias da canção tradicional, aliás algumas delas são citações directas. As orquestrações são simples, feitas com recurso a poucos instrumentos, que se podem identificar na audição.
E é este conjunto de grande simplicidade que tornam este disco uma obra excepcional, com um dedo no pulso da momento político e social português da época, tentando ensaiar pontes artísticas e musicais de músicos que tinham a idade que tinham em termos de referências, mas que pretendiam assimilar a grande riqueza da música tradicional portuguesa, ao mesmo tempo que, com equilíbrio de timidez e arrojo, tentavam incorporar outras linguagens e outras referências, como a música contemporânea ou o jazz.
Um disco, como se diz numa das canções, que é «coisa do outro mundo». Esperemos que as pessoas o ouçam. Não por tradicionalismo ou saudosismo ou portuguesismo. Mas apenas porque nunca se fez, e nunca mais se fez, em Portugal, música tão boa e interessante como esta.