December 15th, 2006

rosas

expresso do oriente VI

22.11.06

Amanhã vamos para Penang, para Batu Ferringhi, passar 4 dias. A ideia era fazer praia, mas parece que a praia em Penang não é grande coisa, por isso decidimos fazer um up-grade e alterar a reserva que tínhamos numa guest house de nível budget, para um resort de 5 estrelas, o Shangri-la Golden Sands, que toda a gente diz ser um dos melhores resorts de BF. Assim, mesmo que a praia não preste, pelo menos há-de haver bom ambiente para descansar e apanhar sol (e, obviamente, a infalível chuvada).

Hoje de manhã estava a ler no jornal uma notícia sobre um torneio de ténis em Seoul, e dei por mim a pensar que já agora gostava de também conhecer a Coreia do Sul. Fiquei surpreendido! A verdade é que ainda não estou apaixonado pela Ásia, mas acho que já fui mordido por aquela curiosidade que está sempre na origem de uma paixão. Apesar de a Malásia estar na linha da frente da globalização e do mundo das tecnologias de comunicação, que uniformiza tudo, a Ásia, o oriente, espreita a qualquer fissura, e há um enorme mistério no orientalismo. É tudo tão diferente! Nem dá para enumerar, as diferenças são a todos os níveis. No plano da intimidade e da vida pessoal (os hábitos de higiene, que não são piores, são diferentes, a alimentação, que é excelente, mas tão diversa), no plano social e relacional, no plano político. Para já não falar nas tradicionais diferenças de filosofia e modo de olhar o mundo.
Claro que há um plano em que somos ‘todos iguais – todos diferentes’, e a capacidade de nos entendermos, a simpatia, a vontade de ajudar, de fazer qualquer interacção necessária, um momento de empatia, tudo isso traduzido nos pequenos gestos do quotidiano, nos faz sempre perceber que somos sempre o mesmo, only one race.

Tudo isto a propósito de eu estar a ler o jornal e, perante a mais banal das notícias, descobrir o sortilégio da Ásia, do extremo oriente. Não digo que seja vontade de descobrir o mistério, de o desvendar. É mais a de olhar para o mistério, de o contemplar com mais intensidade. À espera, provavelmente, que ele se desvende, se revele. Ou, o que é sempre maior, que ele nos revele a nós próprios.

Enquanto escrevo, cai a mais torrencial das chuvadas, uma tempestade furiosa. Fui à varanda ver e ouvir a chuva. E senti-la. Uma coisa poderosa, violenta, a lembrar-nos (todos os dias, mais ou menos à mesma hora) que a natureza é que manda. São chuvadas rápidas, mas tempestades formidáveis. E esta de hoje é mesmo aqui por cima.


23.11.06

Em Penang.
Toda a manhã a viajar para norte, através de uma paisagem sempre muito verde e bonita.
Parámos em Ipoh para almoçar. É a terceira maior cidade da Malásia, com forte predominância da comunidade chinesa, o que se nota muito bem, sobretudo na zona central da cidade.
Almoçámos num tipo de restaurante a que o Rough Guide chama um ‘hole-in-the-wall’, uma sala ampla, aberta numa esquina do piso térreo, colunas a separar a sala do passeio. Cozinha-se junto ao passeio, na rua, o cliente escolhe logo o que quer e vai se sentar em amplas mesas de pedra. Passados minutos, a comida vai lá ter. Eu comi noodles com galinha e camarão, salada de rebentos de soja, uma salsicha picante e pedaços de tofu. A atmosfera do restaurante é viva, muito barulho, muita descontracção, algazarra. Trata-se de um kedai kopi, um café chinês.

Demos uma volta por Batu Ferringhi, para fazer o reconhecimento, e viemos para o hotel. Resto da tarde na piscina. Fui provar a água do mar, que, como nos tinham prevenido, é um bocado turva, mas a temperatura é fantástica. O pior é que há um aviso por causa das alforrecas, que infestam as águas e cuja mordedura é, no mínimo, muito dolorosa. Para além dos cartazes a avisar, os próprios vendedores que estão na praia vêm avisar para não mergulhar na água por causa do ‘jelly fish’.

Já caiu a noite, e estou sentado na varanda do quarto a escrever, praticamente sem conseguir ler o que escrevo. Não acendo a luz, por causa dos insectos, mas tenho a sensação de que já estou todo devorado.
Para além das luzes da piscina do resort, o mar começa a ser uma enorme mancha escura, ponteada pelas luzes dos barcos que navegam de este para oeste ao longo da linha do horizonte. À direita, sobre o mar, está-se formar uma tempestade, o negro pesado do céu interrompido pela claridade branca e momentânea dos relâmpagos (ainda está longe, de modo que não se ouvem os trovões) rebentando por cima das nuvens.
Acho que este momento – sentado aqui na varanda, de costas para o mundo, a ver uma tempestade sobre o mar – é um daqueles momentos que tenho estado à espera de viver. E que finalmente está a acontecer.