December 13th, 2006

rosas

expresso do oriente IV

19.11.06


Ontem à noite fomos ao bar do hotel. Bebi um Mai Tai. Havia música ao vivo com um agrupamento feminino, das Filipinas, com o delicioso e improbabilíssimo nome de D’NytLyf. Cantavam sobretudo canções dos anos 80 da onda R’n’B. As front girls tinham um ar sexy tipo banda-feminina-de-bar-de-hotel, mas lá atrás havia uma rapariga gordinha, com um ar muito simpático, e que era a especialista das teclas e a única que sabia cantar e colocar a voz. Bem, essa miúda era capaz de inspirar contos e histórias. Inspirou-me a ideia de uma rapariga gordita, com talento musical mas sem o rasgo de génio necessário para uma carreira a outro nível, e que ganha a vida a tocar música a metro em bares de hotel, a acompanhar cantoras sexys o bastante para atraírem as atenções de homens de negócios solitários e escassos turistas ensonados.

Dia longo e cansativo. Fiz o Malaca tour: de manhã vi a Porta de Santiago, subi a colina da antiga fortaleza A Famosa, visitei as ruínas da catedral de São Paulo, o túmulo vazio de São Francisco Xavier, desci pelo outro lado em direcção à Dutch Square. Em frente à igreja de São Francisco Xavier apanhei um riquexó (movido a pedal, vá lá) que me levou, em meia-hora de viagem, ao kampung Portugisi, o bairro dos portugueses de Malaca, com as suas ruas e estabelecimentos com nomes portugueses.
Regresso ao centro da cidade, e atravessei a ponte para Chinatown. Almoço no Peranakan, um restaurante chinês tradicional de Malaca, instalado numa das antigas mansões Baba-Nyonya. Características de Malaca, estas mansões pertenciam aos ricos mercadores chineses que no século XVIII se instalaram na Malásia e que, porque as mulheres estavam proibidas de sair da China, casavam com mulheres malaias. Hoje estas mansões, as que restam, estão transformadas em museus ou, como no caso no Peranakan, em restaurantes. Um espaço lindíssimo, com mobiliário de sonho.
Depois do almoço, compras em Chinatown, na Jonkers St., que conserva o nome inglês apesar de ter um nome malasiano. Numa paralela a esta rua, entrei, no espaço de escassas centenas de metros, e em poucos minutos, em três templos de três religiões diferentes: um templo chinês (budista, acho eu), uma mesquita, e um templo hindu. Uma verdadeira overdose espiritual.

Comoveu-me a visita à comunidade portuguesa de Malaca. Dizem-me que muita gente fica decepcionada com a visita e eu próprio a princípio deixei-me enganar. A verdade é que vamos para lá à espera de encontrar uma coisa tipo comunidade de emigrantes portugueses, com caldo verde e pasteis de nata, e a realidade é o mais longínqua disso possível. Primeiro, porque é uma comunidade pobre. Depois, porque nada, ou quase nada, liga aquela gente a Portugal, quer dizer ao Portugal de hoje. Não há símbolos mais ou menos saudosistas da pátria distante, não há posters das estrelas da bola ou da música pimba. O que há é uma comunidade de descendentes dos portugueses que demandaram estas paragens e que, tantos séculos depois, mantêm uma certa coerência identitária, observando costumes que os ligam a um passado muito remoto, cultivando um carinho feito de admiração pelos descendentes da pátria desses seus ancestrais, e mantendo um dialecto crioulo, o kristão (ou kristang), que conserva vocábulos e expressões portuguesas.
Conheci uma mulher muito bonita, a Sharon, que fala kristão, e um homem já idoso, o Sr. Pedro de Silva, que fala português. Como disse, nada liga estas pessoas a Portugal. Mas eles afirmam-se, orgulhosamente, os portugueses de Malaca.
Poucas vezes senti orgulho em ser português, e esta foi uma delas. Orgulho na força que conseguiu criar e manter viva uma tradição quando são tão ténues as raízes da sua origem.

Lembrei-me, a propósito dos portugueses de Malaca, de uma das minhas frases preferidas, e que li há muitos anos num dos bilhetes de Colares, escrito sob pseudónimo pelo embaixador José Cutileiro. Dizia numa dessas crónicas o A.B. Kotter que os portugueses de hoje não são descendentes dos que foram à Índia, mas dos que ficaram em Portugal. É sem dúvida uma das coisas importantes da minha vida esta oportunidade de conhecer, finalmente, os descendentes dos portugueses que foram à Índia.