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(no subject)
rosas
innersmile
Dos três livros que levei para férias, li dois: Eis-me Acordado Muito Tempo Depois de Mim - Uma Biografia de Al Berto, de Golgona Anghel (Quasi), e As Pequenas Memórias, de José Saramago (Caminho).
A biografia de Al Berto marcou muito a primeira semana de férias, quando não conseguia dormir por causa do jet lag e passava parte das madrugadas equatoriais num estado de exaltação muito sugestionado pela exaltação poética, e biográfica, do Al Berto. Infelizmente, o livro não é tão exaltante como o biografado, e, na minha humble opinion, deixa um fortíssimo sabor a pouco. Mais do que uma biografia, de resto, trata-se de um conjunto de ensaios biográficos, acompanhados por uma cronologia. Em Al Berto, ou pelo menos na minha relação com ele e a sua poesia, o fundo biográfico é muito importante, por tudo aquilo que se adivinha na sua poesia, e pelo facto de buscarmos nos seus poemas, eu pelo menos busco, muitas respostas a uma certa perplexidade de cariz erótico e homossexual. Infelizmente, o livro não dá pistas, não dá sentidos, e a biografia é sempre muito curta.

Quanto ao livro de Saramago, parece-me claramente uma obra menor na bibliografia do escritor, e isso não tem nada a ver com a idade do sujeito objecto desatas memórias (desculpem a graçola). Eu gosto muito do Saramago, ou pelo menos de alguns dos livros dele que li, e gosto muito de livros de memórias, mas estas memórias da infância lisboeta e beirã do nosso prémio Nobel sabem a pouca substância, parece haver pouco para contar, e muitos dos parágrafos parecem ter como única missão o proverbial encher chouriços. Anda lá, homem, despacha-te, foi o comentário que mais me ocorreu quando estava a ler. Salva-se o estilo do Saramago, e o seu espantoso, e sempre muito subtil sentido de humor. É de facto estranho num tipo sempre tão sério, e até um pouco seco se não mesmo amargo, mas o Saramago tem um sentido de humor apuradíssimo e, como disse, de uma subtileza que só o torna ainda mais divertido.

E para não sair desta categoria lata dos livros de memórias e das (auto)biografias, cheguei cá e logo no primeiro dia comprei, edições Caminho, O Livro do Meio, um (falso) romance epistolar escrito por Maria Velho da Costa e Armando Silva Carvalho. O livro tem feito alguma polémica no pequeno meio literário e da cultura lisboeta (eu só sei disto porque presto atenção aos jornais e a alguns blogs), porque os autores se referem, de forma particularmente crua, a algumas figuras (enfim) públicas. Algumas vêm lá com o nome por extenso, outras apenas com iniciais, e algumas destas eu consigo identificar e outras não. Mas o livro é muito muito mais do que esta picardia que, nalguns casos, me parece um pouco cruel demais. Do programa do livro, assumem os autores, constava uma visitação das respectivas infâncias. Resulta também uma janela abertíssima para as relações dos autores com a literatura, para os respectivos processos de criação literária, e sobretudo para as reflexões que os autores fazem acerca dos seus livros e da literatura em geral.
Mas, na minha opinião, o que sobressai do livro, e o torna uma aventura fantástica, é a altíssima qualidade da escrita. O Livro é um prazer imenso, é daquelas coisas que se lêem como se as palavras nos afagassem as terminações nervosas, como se fizessem cócegas ao cérebro. É daqueles livros em que se repete um parágrafo, por vezes uma página, mesmo uma carta inteira, apenas pelo prazer de ler o que está, e como está, escrito. E tudo num tom aparentemente coloquial, uma coisa assim saída sem grande esforço ou desígnio, umas vezes mais ao correr da pena do que outras. Parece fácil escrever assim, e no entanto, deve ser tão difícil que só escritores muito grandes são capazes de o fazer.