December 3rd, 2006

rosas

the night listener

Quando, aí por meados da década de oitenta, comecei a frequentar as estantes gay & lesbian das livrarias londrinas, um dos nomes mais destacados era o do escritor Armistead Maupin, e as suas Tales of The City. Mas foi só em 1995, numa viagem à Irlanda, que comprei numa livraria de Dublin, creio que o segundo volume da série. Fiquei, é claro, apanhadíssimo, e não descansei enquanto não encomendei todos os restantes volumes (seis, se não estou em erro), bem como os dois livros que Maupin publicou depois de conseguir matar os irresistíveis habitantes de Barbary Lane.
O Armistead Maupin foi um dos primeiros escritores assumidamente gays que eu li, e devo-lhe, para além do enorme prazer da leitura dos seus livros, o facto de eu ter de alguma forma criado um gosto e até uma certa atenção por aquilo a que, para facilitar, podemos chamar de literatura gay.
O segundo dos dois livros pós-Tales of the City (e que estão cá editados, acho que com o título Histórias da Cidade) foi The Night Listener, baseado num acontecimento real da vida do escritor, e que foi a sua amizade com um jovem doente de sida, de 14 anos, vítima de uma rede pedófila, que publicou um livro relatando a sua arrepiante experiência. Curiosamente eu já tinha lido esse livro, A Rock and A Hard Place, que encontrei inexplicavelmente à venda em Coimbra, e já o tinha lido sem saber que ele estava ligado a Maupin, que foi um dos principais impulsionadores da sua publicação.
Aparece agora em filme a versão cinematográfica de The Night Listener, com um surpreendentemente dramático Robin Williams a fazer o papel de Gabriel Noone, a personagem que representa Maupin nesta ficcionalização desta história, e a sempre fabulosa Toni Collette a fazer o papel de Donna, a mulher que recuperou e adoptou o rapaz doente.
O filme é bastante sombrio, mais do que ideia que eu tinha do livro de Maupin (que foi co-autor do argumento), mas isso talvez seja porque eu gosto tanto da escrita leve e escorreita do Maupin, que o leio sempre de uma forma muito lúdica.
Omito aqui todo o sentido da história do livro, e do filme, porque neste caso, como noutros, o segredo é a alma do negócio, mas posso adiantar que a trama da história gira toda à volta da possibilidade de estarmos perante um embuste literário. Mas o filme é mais do que isso, e utiliza com bastante sentido melodramático a situação do livro e do seu autor como contraponto catártico da crise na sua vida pessoal porque está a passar a personagem de Williams: até que ponto a crise emocional nos pode fragilizar de forma a que procuremos determinadas compensações que podem de alguma forma pôr em causa o sentido da realidade. Ou seja, até que ponto a erosão sentimental nos torna vulneráveis ao ponto de procurarmos consolo em qualquer forma de ilusão?
rosas

dream within a dream

Segunda noite consecutiva cheia de sonhos, mas, ao contrário da anterior, esta foi pior porque passei o tempo todo a acordar. Suponho que ainda são efeitos da diferença horária. Quando cheguei à Malásia, estive quase uma semana a dormir três ou quatro horas por noite, e a ter irreprimíveis ataques de sonolência durante o dia. Mas como em mim o jet lag é sempre pior quando viajo de Oeste para Este, espero que a adaptação seja mais rápida agora.
Também ao contrário da noite anterior, lembro-me vagamente do sonho desta, e tenho a sensação de que foi um sonho só que durou a noite toda, interrompido de cada vez que acordava e retomado logo em seguida.
Há um tipo de sonhos que em mim são recorrentes, e que são aqueles em que num clima de grande normalidade se instala uma impossibilidade qualquer, em geral comezinha e medíocre, mas que me impede de fazer ou chegar aonde quero. É uma impossibilidade que se instala devagar, ao princípio apenas um contratempo a que se reage com calma, mas que vai crescendo até se tornar uma claustrofobia incómoda e obsidiante.
O desta noite inscrevia-se num ambiente que misturava o gigantismo das salas de espera dos aeroportos (teria de ser ‘inspirado’ no Schipol de Amesterdão onde estive sete intermináveis e enfadonhas horas à espera de ligação no regresso) com o feerismo anárquico dos kedai kopi chineses, nomeadamente de um onde almocei em Ipoh, a capital do estado de Perak, e a terceira maior cidade da Malásia (para que conste, era o Kedai Kopi Hong Heng).
Com certeza nem seria preciso convocar Freud para explicar este sonho. Mas o que eu preferia mesmo era poder voltar-me para o outro lado e continuar a dormir.