December 2nd, 2006

rosas

frio & quente

De regresso.
Cheguei a casa ontem à hora do jantar, depois de mais de trinta horas em aeroportos, viagens de avião e o comboio para a província. Às dez da noite estava a dormir. Acordei por volta das quatro, tornei a adormecer, e voltei a acordar às sete. Estava a sonhar desenfreadamente, mas não me lembro com quê. Mas acordei e por instantes não fazia a mínima ideia onde estava, aliás acho que houve ali uma fracção de milésimo de segundo que nem sabia bem quem era... Aos poucos, percebi que estava no meu quarto da minha casa, mas que me parecia um lugar muito estranho, comparado com o meu quarto em Kuala Lumpur. Agora, a frio (no pun intended in a moment), julgo que essa sensação de estranheza vinha do facto de estar muito frio (aqui está ele), ao contrário do que acontecia nas noites em KL, que eram sempre deliciosamente quentes e abafadas.
Não há dúvida: o mundo é sempre um lugar estranho quando estão menos de 15 graus de temperatura.

Na quinta à noite, estava sentado num cantinho da sala de embarque do aeroporto de KL a escrever as minhas notas no caderno. A minha amiga e companheira de viagem andava em peregrinação pelas lojas do aeroporto. Ao meu lado sentou-se um casal de chineses de meia-idade (adoro esta expressão, ainda que ela, cruelmente, já se me aplique). O senhor afastou-se e eu reparei, pelo canto do olho, que a senhora não parava de olhar para mim. Ao fim de uns momentos, não resistiu à curiosidade: «Are you a writer?». Respondi, com o meu mais educado sorriso, que não. Ela insistia que eu devia ser escritor e que a minha maneira de escrever era «very funny». Estávamos, claro, embalados na conversa. Eu e Mimi, assim era o seu nome, malasiana a caminho de Manchester. Não se pode dizer que a conversa, ainda que embalada, fosse muito fluente: para além do carregadíssimo sotaque inglês dos malasianos, para mais dos malasianos chineses, Mimi era fanhosa. Não gozem, mas tentem manter uma conversa com uma chinesa malasiana fanhosa!. Entretanto chegou o marido, a conversa evoluiu para o incontornável tema do futebol (Cristiano Ronaldo é uma estrela mundial, de longe o português mais famoso e conhecido da actualidade), profissões, razões das viagens, impressões da Malásia. Chegou a minha amiga e já éramos quatro a conversar animadamente.
Chegou entretanto a hora do nosso embarque, e despedimo-nos. Aqui no meu caderno («your writing is very funny»), na última folha, na sua caligrafia certa e clara, Mimi escreveu o seu nome e endereço, já que me ofereceu a sua casa, e promessas de me levar a passear aos seus lugares preferidos da região, para próximas visitas à Malásia. Não, Mimi, «I'm not a writer», mas antes que seja tarde, tu já entraste na história da vida que eu ando a escrever.