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crime no museu egípcio
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innersmile
CRIME NO MUSEU EGÍPCIO

No Museu Egípcio do Cairo, há uma sala de portas envidraçadas que alberga o tesouro de Tutankhamon. A sala é muito pequena, os interessados são muitos, e a confusão junto às portas de vidros é enorme. Deveria haver uma forma mais metódica de organizar a entrada do público na sala, mas, normalmente, e às horas do dia em que os autocarros despejam carradas de turistas às portas do museu, a melhor forma de garantir a entrada na sala é saltar para o meio da confusão e forçar a passagem à custa de empurrão e cotovelada.

Foi isso que o homem de cinzento fez, tentando nunca perder de vista o homem da camisa às flores, que se encontrava mais à frente, no meio da confusa mole humana. Á medida que se ia aproximando da porta, onde dois seguranças do museu tentavam controlar o acesso de forma a limitar o número de visitantes dentro das sala, o homem de cinzento suava cada vez mais profusamente e o seu tom de pele era cada vez mais branco. Apesar de os seus olhos denotarem um pânico iminente, o rosto do homem de cinzento mantinha-se cerrado, mesmo quando reparou que o homem da camisa às flores tinha acabado de entrar na sala. O homem de cinzento aproveitou para furar mais um pouco, e postou-se mesmo junto à porta, preparado para entrar.

O monumental portão exterior do Museu Egípcio é ladeado por duas pequenas guaritas que foram convertidas em postos de segurança. Formam-se duas filas enormes, que se esticam pelos passeios contíguos, e os visitantes têm de passar por um detector de metais, e por duas revistas, uma pessoal e outra aos sacos e mochilas. Além disso, dentro do próprio edifício, no grande hall de entrada, há mais um posto de controlo com outros dois detectores de metais. Como não são permitidas câmaras fotográficas ou de filmar no interior do museu, mas é possível fotografar no vasto pátio ajardinado que o rodeia, os turistas, antes de entrarem no edifício, têm de ir depositar o material de registo de imagem num balcão próprio.

Assim fez o homem de cinzento. Esteve na fila, passou pelo detector de metais, foi revistado, deu o saco do material fotográfico à revista e finalmente entrou para o jardim. Aqui chegado, o homem de cinzento montou um tripé, fixou a máquina e começou a fotografar. Passados uns minutos, desmontou o equipamento e tornou a guardá-lo, para o ir depositar. Entretanto, enquanto desmontava o tripé, e com gestos discretos mas firmes, o homem de cinzento desaparafusou um dos pés, deixou escorregar um longo e finíssimo estilete pelo tubo de metal e para dentro de uma bainha cosida ao forro da manga do casaco. Depois de entregar o saco no balcão próprio, o homem de cinzento aproximou-se de um grupo muito grande de turistas portugueses que, no meio da maior algazarra, entravam nesse momento no edifício do museu. A confusão que se gerou era tão grande, que, como acontece frequentemente, os seguranças começaram a mandar as pessoas passar rapidamente, umas pelos detectores, outras ladeando-os.

Na leva seguinte de turistas que entraram na sala do tesouro, o homem de cinzento apenas teve de fazer uma pequena pressão nas costas das pessoas que estavam à sua frente, e foi praticamente transportado pelo ar até ao interior da sala. Mal chegou lá dentro, o homem de cinzento olhou em redor até detectar o homem da camisa às flores, que estava no lado oposto da sala, já próximo da saída, numa zona dominada por dois dos sarcófagos interiores de Tutankhamon, dois tesouros de valor incalculável que se encontravam protegidos por caixas de vidro dispostas paralelamente.

Nesta altura, o homem de cinzento suava copiosamente, estava pálido, os olhos raiados de sangue e a piscar. Na verdade, sentia-se à beira do colapso e apenas uma grande determinação o impedia de tombar sem sentidos. O seu descontrolo aumentou quando percebeu que, ao lado dos sarcófagos, a multidão de turistas se acumulava junto à porta de saída, apertando com força de encontro às divisórias de vidro, num tumulto que igualava, se não mesmo suplantava, a confusão para entrar.

Sem olhar para os lados, sem atentar nos deslumbrantes tesouros do grande faraó, particularmente na esplendorosa máscara fúnebre, o homem de cinzento dirigiu-se apressado, empurrando um ou outro turista mais distraído, para a zona dos sarcófagos. Aí, exactamente entre os dois, banhado pela luz que rutilava do ouro e pedras preciosas dos túmulos, estava o homem da camisa às flores, debruçado a admirar o tesouro. O homem de cinzento contornou o sarcófago interior, ao mesmo tempo que fez deslizar o estilete pela bainha do forro da manga do casaco, apertando-o com força por entre os dedos trémulos. Acercando-se pela frente do homem da camisa às flores, o homem de cinzento espetou profundamente o estilete no lugar do coração, amparou o corpo do homem da camisa as flores que tombava sobre a caixa de vidro, e continuou a andar até se embrenhar na compacta massa de gente que tentava sair da sala.

Depois de furar através das pessoas, sem poder usar de demasiada força ou violência, que chamaria a atenção para o seu estado alterado, o homem de cinzento finalmente conseguiu sair da sala. Como a porta de saída ficava muito próxima da de entrada, o homem de cinzento embrenhou-se no meio da multidão que tentava entrar na sala do tesouro. Afastando-se sempre, com passos rápidos e sem nunca olhar para trás, o homem de cinzento tentava recuperar o fôlego, e retomar o ritmo cardíaco, que por causa do ataque de claustrofobia e agravado pelo disparo adrenalítico da desmesurada tensão que acabara de viver, batia desenfreado no pescoço, nos ouvidos, nas frontes. Saindo do edifício, sem sequer se dar ao trabalho de retomar o saco com o material fotográfico, o homem de cinzento correu pelo passeio, acenando profusamente para os táxis que passavam. Quando um deles parou, o homem de cinzento atirou-se para o banco de trás, e fechou os olhos, respirando profundamente. Nesse preciso momento, uma artéria rasgou-se, rebentando no seu cérebro. O táxi arrancou, perdendo-se no trânsito caótico e na luz poluída e dourada da cidade do Cairo.
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