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(no subject)
rosas
innersmile
«Nunca houve leito mais sumptuoso para acolher o luxo de dois corpos excitados. Peles lustrosas resvalavam ao unir-se, fundiam-se deslizando na voluptuosidade suprema de um suor perfumado por jasmins. Abraçavam-se sobre panos tingidos de púrpura. Esfregavam-se com sexos de prata. Perdiam-se sob um nevão formado por plumas de íbis do Nilo.
A mulher limpava o suor do corpo do amado com a sua cabeleira ungida com óleos da Arábia. O macho recebia a carícia dos seus seios como se fossem romãs dos hortos de Tiro… e o Amor reproduziu-os num desfraldar de espelhos dourados e lançou sobre eles um orvalho de pedras preciosas.
Choviam esmeraldas sobre os seus olhos a fim de poderem contemplar o corpo desejado através de um verde parecido com o dos vales do Líbano. Choviam opalas, pérolas, ónices, rubis, safiras, turquesas e águas-marinhas. O êxtase convertia-se num jogo de luas encastradas no branco marfim que chega da Índia. O êxtase era um cofre repleto de aromas compostos por dezasseis espécies de substâncias como o perfume relaxante chamado kyphi, que apenas os sacerdotes egípcios conhecem. O êxtase assemelhava-se ao estalar de todos os planetas, estampado para sempre numa tela primorosa, da que chega pela rota da seda.»



É o segundo trecho que aqui ponho de NÃO DIGAS QUE FOI UM SONHO, um livro escrito pelo falecido escritor catalão Terenci Moix. O livro, que rouba o título a um verso de Kavafys, do poema Pois Deus Abandona António, conta os amores de Cleópatra e Marco António. Terenci Moix era um especialista em egiptologia, e por isso o livro está imbuído duma certa mistura de rigor histórico e fascínio que caracteriza em particular os estudiosos do Antigo Egipto.
Há três coisas que tornam o livro de Terenci Moix muito entusiasmante. Primeiro a riqueza das descrições, sempre exuberantes e grandiosas, tentando captar um fausto e um excesso que devem tanto à história como aos mitos do cinema. Este livro é, definitivamente, para ser lido em ecrã de 70 mm, se é que isto diz alguma coisa aos leitores do innersmile. Ainda neste aspecto, saliente-se que o autor nunca se refreia nas descrições da vida amorosa dos protagonistas, com subtis toques de homo-erotismo, mas nunca ultrapassa os limites do bom gosto literário; não é fácil escrever bem sobre sexo, e Terenci Moix consegue-o.
Em segundo lugar, Moix consegue criar um clima romanesco intenso. Mesmo que haja esse excesso um pouco artificioso, as personagens e as suas peripécias são sempre apresentadas de um modo empolgante. Finalmente, o escritor consegue dar ao livro um tom de exemplo e moral, como se, se estivéssemos com muita atenção, conseguíssemos ler no livro os segredos mais essenciais da vida humana, os que se prendem com o amor, a política e o divino.