November 2nd, 2006

rosas

the devil wears prada

The Devil Wears Prada poderia ser uma comédia bem esgalhada, bem escrita, com um toque de modernidade, apelando à faixa mais sofisticada do mainstream, com uma variação, mais uma, da velha história de Pigmalião, desta vez no universo da moda.
O problema é que The Devil Wears Prada tem Meryl Streep, e num dos seus desempenhos mais brilhantes. Se a Meryl Streep já de si é a melhor actriz do cinema actual, quando se aplica é qualquer coisa de fabuloso. E é isso que acontece neste filme. Numa personagem que pedia um registo histriónico, excessivo, a actriz arranca um desempenho sempre muito apertado, muito controlado, mesmo minimalista, que tem o condão de dar à maldade da personagem uma dimensão verdadeiramente diabólica, uma emanação que vem de dentro e explode de forma fulminante, como um raio certeiro, sobre a cabeça das pobres vítimas. Além disso, consegue conferir à personagem uma dimensão dramática, quase de heroína de tragédia operática, ao sugerir, sempre com total subtileza, que aquela maldade toda tem de radicar numa qualquer tristeza profunda. Se não fosse o facto de o desempenho de Streep transformar este num dos filmes do ano, quase poderíamos dizer que era um desperdício de talento. Mas como corre tudo muito bem, e o filme se aguenta à bronca com uma actriz tão grande, o que há a fazer é ir a correr para a sala de cinema mais próxima.