October 31st, 2006

rosas

loving angels instead

O Y de sexta-feira passada trazia dois artigos sobre o Robbie Williams a propósito do seu mais recente disco. Um dos artigos era sobre o disco propriamente dito, e pode-se resumir numa espécie de 'agora não faz mal gostar do RW'! O segundo artigo é sobre o próprio RW, fazendo um breve historial da sua carreira e traçando o retrato da sua 'persona' artística.
De todos os formatos musicais, o meu preferido é a canção. Mesmo que os meus gostos musicais tenham vindo a modificar-se, mesmo que tenha começado a ouvir mais outras coisas, com formatos mais complexos, nada me arrebata mais do que uma canção, sobretudo uma canção popular, ou seja, uma canção pop. É incrível como esses três minutos de música e palavras conseguem, no seu poder de síntese e com enorme simplicidade, criar verdadeiros universos e provocar-nos emoções e sentimentos. Tal como é mágica a sua universalidade, quer no que respeita ao facto de os estilos e as formas que a canção assume em todas as partes do mundo serem simultaneamente tão diversas e afins entre si, quer no que toca ao seu apelo, que faz que consigamos perceber e comover-nos com uma canção escrita por um compositor de um país que não conhecemos ou numa língua que não dominamos.
Voltando aos artigos do Y sobre o RW, lembrei-me deste imenso poder da canção popular a propósito de uma coisa que é referida nesses artigos. Depois de falar no início da carreira numa boysband, os Take That, o artigo diz que o RW era, de todos os seus elementos, o menos provável de alcançar o sucesso e conseguir fazer uma carreira a solo. E atribui muito do seu sucesso ao facto de ter conseguido criar a tal persona, a do entertainer provocador sempre com a mistura certa de convicção e auto-ironia. É verdade que sim, mas o que o artigo não refere é que o sucesso de Williams, aquilo que o transformou de um 'has-been' numa estrela pop mundial, foi apenas uma canção. Estou, naturalmente, a falar de Angels, uma daquelas canções pop perfeitas, co-escrita por RW, e que é ao mesmo tempo uma canção intimista, uma balada romântica e um hino daqueles que dá gozo cantar aos berros nos concertos.
O ponto onde eu quero chegar, para além de lembrar uma belíssima canção, é que muitas vezes temos a tendência de achar que a indústria musical é uma coisa demasiado cerebral, que as carreiras e o sucesso e as vendas não passam de planos de negócios, planeados e executados com a frieza dos executivos e a imoralidade do capitalismo. Mas nem sempre, ou pelo menos não só. No caso de Williams, isso foi conseguido graças a uma simples canção, que tem o pendor de comover e fazer sonhar uma teenager de catorze anos ou um madurão empedernido de quarenta.

[o YouTube tem dezenas de versões da canção, do respectivo vídeo-clip, e de gravações ao vivo. Deixo, pelo insólito, o link para esta, cantada em espanhol por uma mexicana num programa qualquer daqueles tipo chuva de estrelas]