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Belíssimo e muito feliz o filme que Miguel Faria Jr. fez sobre Vinícius de Moraes, um documentário de quase duas horas, intitulado, simples e justamente, Vinícius. E se à partida era um desafio com algumas garantias de sucesso, porque é difícil fazer uma coisa má sobre uma figura tão luminosa, a verdade é que o filme consegue evitar as facilidades típicas dos filmes de homenagem.
Apesar de seguir a estrutura mais ou menos característica dos documentários biográficos, sequência cronológica, clips documentais, depoimentos, o filme não cai em absoluto nos dispositivos típicos dos documentários de televisão. E isso deve-se muito ao recurso a uma evocação teatral que, sendo a princípio um pouco estranha e até artificiosa, consegue fornecer ao filme uma linha narrativa, um fio ao longo do qual se apresentam algumas versões de canções clássicas de Vinícius, e que fornece o suporte aos tais elementos mais documentalistas.
Como comecei por dizer, difícil seria fazer um mau filme sobre uma personagem tão adorável como Vinícius de Moraes. Mas o realizador consegue traçar um retrato a corpo inteiro, sem nunca carregar nas cores do psicologismo (seria até blasfemo fazer tal com uma personagem tão solar e epidérmica), mas sem nunca deificar em demasia a figura do poeta. A meu ver, aliás, a perspectiva apresentada é a mais correcta e honesta: as nossas forças e as nossas fragilidades são sempre as duas faces da mesma moeda, e por isso em Vinícius a compulsão alcoólica ou a inconstância amorosa são sempre a face contrária da sua personalidade extrovertida, do seu estado poético de paixão, da generosidade com que se abria aos outros e o prazer que isso lhe dava.
O filme acentua com firmeza uma das outras características excepcionais de Vinícius, e que era o facto de nele convergirem e coabitarem as culturas popular e erudita, e de que nele essa coabitação sempre se traduziu por uma esforçada tentativa de sentir, mais do que perceber, o Brasil. E por isso o filme sendo sobre uma personagem tão marcante, nunca deixa de ser igualmente um olhar sobre um país, uma cidade, uma época. A exemplo disto, há, perto do final, uma passagem do depoimento de Chico Buarque que convoca para o filme uma tensão de corda esticada, e que é quando ele se refere ao papel, ou à falta de papel, que Vinícius teria no Brasil actual. Pode parecer uma evidência, mas é muito clarificadora essa perplexidade de Chico de que Vinícius, esse que existiu tal como o conheceram os seus amigos e admiradores, dificilmente teria lugar no Brasil actual.
De resto, Chico Buarque, de forma mais reflexiva e roda de malandros, Tônia Carrero, no que se refere à vida amorosa de Vinícius, e Ferreira Gullar, no que toca à poesia, dominam a componente de depoimentos do filme, que conta ainda, entre muitos outros, com as participações de Caetano e Bethania, de Toquinho ou Edu Lobo.
Mas claro que brilhando com mais intensidade está sempre Vinícius de Moraes, e aquela que será a maior dádiva da sua poesia e da sua música: o credo de que o amor e a paixão e a beleza são o melhor da vida. São o que nos salva e redime. São, como o próprio filme e nas palavras do poeta, fundamentais.
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