October 28th, 2006

rosas

(no subject)

«O romancista José Manuel Fajardo contou-me um dia uma história que, por sua vez, lhe tinha sido contada por Cristina Fernández Cubas, que muito admiro. Segundo parece, esta pretendia tratar-se de um facto real acontecido a uma tia sua, ou talvez a uma amiga de uma tia. O caso é que havia uma senhora, a quem chamaremos, por exemplo, Julia, que vivia em frente a um convento de freiras de clausura; o apartamento, situado num terceiro andar, tinha duas varandas que davam para o convento, uma sólida construção do século XVII. Um dia, Julia provou as rosquilhas que as freiras faziam e gostou tanto que se habituou a comprar uma caixinha todos os domingos. A assiduidade das suas visitas fê-la entabular uma certa amizade com a Irmã Porteira, que, evidentemente, nunca tinha visto, mas com quem falava através da roda de madeira. Conhecendo os rigores da clausura, um dia Julia disse à Irmã que viva justamente à frente, no terceiro andar, aquele que tinha duas varandas que davam para a fachada; e que não hesitasse em pedir a sua ajuda se necessitasse de alguma coisa do mundo exterior, que levasse uma carta, que fosse buscar uma encomenda, que fizesse algum recado. A freira agradeceu as coisas ficaram assim. Passou um ano, passaram três anos, passaram trinta anos. Uma tarde, Julia estava sozinha em casa quando bateram à porta. Abriu e encontrou-se frente a frente com uma freira pequenina e velhinha, muito esmerada e enrugada. Sou a Irmã Porteira, disse a mulher com a sua voz familiar e reconhecível; há anos a senhora ofereceu-me a sua ajuda se eu precisasse de alguma coisa do exterior, e agora preciso. Muito bem, respondeu Julia, diga. Queria pedir-lhe, explicou a freira, que me deixasse debruçar na sua varanda. Admirada, Julia deixou a velhinha entrar, levou-a através do corredor até à sala e foi até à varanda com ela. Aí ficaram as duas, quietas e caladas, contemplando o convento durante muito tempo. Por fim, a freira disse: É bonito, não é verdade? E Julia respondeu: Sim, muito bonito. Dito isto, a Irmã Porteira regressou novamente ao seu convento, previsivelmente para nunca mais voltar a sair.
Cristina Fernández Cubas contava esta belíssima história como exemplo da maior viagem que pode realizar um ser humano. Para mim, é mais qualquer coisa, é o símbolo perfeito do que significa a narrativa. Escrever romances implica atrevermo-nos a completar esse trajecto monumental que nos arranca de nós próprios e nos permite ver-nos no convento, no mundo, no todo. E depois de fazer esse esforço supremo de compreensão, depois de roçar por um instante a visão que completa e que fulmina, regressamos a coxear à nossa cela, à prisão da nossa estreita individualidade, e tentamos resignar-nos a morrer.»


- Rosa Montero, A LOUCA DA CASA