October 26th, 2006

rosas

(no subject)

porque tudo é sempre o teu nome, e mesmo nome de cidade. porque conto devagar os dias à espera que chegues, o barulho do motor do carro lá em baixo na rua, a tua silhueta crescendo na obscura cintilação dos candeeiros. porque sabes a fumo de cigarros e eu hoje ainda não sei se voltas, se esta casa já é tua, ou se o teu sorriso à despedida desapareceu devagarinho quando as luzes vermelhas fizeram a curva ao fundo da rua. porque deixaste a camisa abandonada no espaldar da cadeira, um sapato para cada lado, e o teu cheiro no sofá. já só guardo a camisa. azul. as mangas arregaçadas em duas dobras. porque me dizes, e eu fico desarmado, sem saber se és assim ou se sou eu que te vejo assim. porque pareces tudo mas também pareces demasiado, e ao pé de ti perco-me, e já não sei a minha idade, se sou novo ou velho, se envelheço de encontro à tua pele, ou se rejuvenesce em mim quando, de manhã, tenho vontade de te ver.

porque amanhã não sei se ainda cá estou, se ainda cá estás, se vou ao encontro de outra cidade quando me telefonares, se alguma vez chegarás como quando vi o teu carro parar, tu abrires a porta, saíres, subires a rua devagarinho, e eu por um momento enrolar-me, como um sonho, como um desejo, na palma húmida da tua mão. porque os teus gestos são desastrados, porque tacteias à procura de uma firmeza que não sentes, porque fechas os olhos e eu não sei se ainda estou ao teu lado ou se estás sozinho na minha sala. porque hoje corri vezes sem conta para a janela, sem saber se virias, sem saber se eu queria que viesses.

porque me amarás para sempre. porque me dizes que me amarás para sempre e eu acredito. mesmo quando não ficas. mesmo quando não vens. mesmo quando não voltas. escrevo o poema que tem o teu nome, mesmo se adivinho um nome de cidade no lugar dos dias.