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Muito do meu fascínio com os livros e os seus autores é feito de fulgores, de clarões. Por vezes essa luz perdura e vou mantendo uma relação pausada mas mais ou menos duradoura com certos autores: só para dar três exemplos que me vêm assim de repente à cabeça, são os casos de Cardoso Pires, Saramago ou Italo Calvino, autores de quem gosto muito, mas cujas obras não devoro, antes vou saboreando devagar, um livro agora, outro depois. Outras vezes a paixão consome-se e depois de um período muito febril deixo de me interessar por outros. Estou a lembrar-me de Luís Sepúlveda, cujos livros já consumi com ardor, mas de quem tenho dificuldade em ler os livros mais recentes.
E depois há casos particulares. Autores cujos livros me marcaram muito, que li como fogo que lavra na floresta, depressa e de forma fulminante, cuja obra esgotei tanto quanto pude, e que hoje sinto quase como se estivessem tatuados em mim. Foi o caso de Truman Capote. Ou de Raymond Carver, de quem hoje tão pouco se fala. E foi ainda o caso mais especial de todos, o de Bruce Chatwin.

Chatwin morreu em 1989, e antes de ler qualquer livro dele eu já conhecia a sua história, o famoso episódio da ida para a Patagónia, a sua fama de viajante, a morte com uma doença misteriosa que ainda hoje não se sabe se foi sida ou não.
Tinha em casa um livro dele, uma prenda de Natal, que estive anos sem ler. Era O Vice-Rei de Ajudá. Até que um dia, em finais de 95, li o livro. E só parei quase dois anos depois, quando consegui ler todos os seus livros, os que na altura estavam traduzidos para português (editados pela Quetzal: para além do Vice-Rei, O Canto Nómada, Utz, Os Gémeos de Black Hill, e O Que Faço Eu Aqui), os que ia comprando em Londres (o primeiro de todos que Chatwin editou, In Patagonia, e Patagonia Revisited, escrito em co-autoria com Paul Theroux). E ainda Anatomy of Restlessness, em edição hardback que encomendei através da Papa-Figos, uma tele-livraria que existia no Alentejo, no Redondo, e que, nesses tempos pré-compras online, me permitiu ler muitos autores que ainda não estavam publicados em Portugal (o Armistead Maupin e a sua série de Tales of The City comprei-a quase toda através da Papa-Figos). Voltando ao Chatwin, dele tenho ainda um álbum com fotografias (uma delas em Lisboa) e extractos dos famosos notebooks (sim, os hoje tão na moda Moleskins, cuja existência conheci através do Chatwin, muitos anos antes de ter tido a possibilidade de pegar num com as próprias mãos). Sobre Chatwin, li ainda a biografia escrita por Nicholas Shakespeare (em capas duras, outra encomenda da Papa-Figos, muitos anos antes do livro estar traduzido), e uma outra biografia, With Chatwin: Portrait of a Writer, de Susannah Clapp.

Quando me fazem aquelas perguntas tipo o que é que eu gostaria de ser se não fosse eu, pensa sempre, mas nunca respondo por medo do ridículo, na mais infantil das alternativas: aventureiro. Desses que só há na literatura, sobretudo juvenil. Talvez porque uma parte de mim ficou presa, pendurada lá num ramo mais saído da adolescência. Talvez porque de certa forma é aquilo que está mais longe, mais afastado, daquilo que sou, ou pelo menos da forma como eu acho que sou. Sou sedentário, animal de hábitos, rotineiro ao limite do ritual. Não gosto de mudanças. Quando viajo, e adoro viajar, fico num estado de ansiedade enorme, uma terrível insegurança. Chego a um quarto de hotel e imediatamente faço um rastreio para criar os meus espaços, onde possa depositar as minhas raízes, mesmo que seja por uma noite. E acredito, como uma vez li num livro (e não foi na Odisseia), que só viajamos para podermos regressar a casa.
Talvez por isto tudo, gosto tanto do Bruce Chatwin. Para além, como é óbvio, da sua escrita simultaneamente simples e escorreita, mas também sofisticada e complexa. Pelo humor, pela curiosidade, pela atenção com que olha para fora, mas também pela presunção, por aquela coisa muito inglesa de achar que o mundo é o que fica para lá do canal da Mancha. E também porque o Chatwin expõe-se mas nunca se revela, mostra-se no mesmo gesto com que se esconde ou dissimula.
Porque foi um escritor do nomadismo (que experimentou e conceptualizou e discutiu e defendeu), que é um conceito que eu não consigo entender, não sou capaz de conceber. Mas porque, sendo-o, foi também autor de um lindíssimo romance sobre um par de irmão gémeos que nunca saíram do sítio onde nasceram, e o mais longe que se afastaram da sua aldeia natal, da sua casa natal, foi irem ver o mar e um deles dar um passeio de avioneta. E porque sendo um escritor do nomadismo e do despojamento, escreveu um romance breve e minucioso sobre os objectos e a compulsão para os coleccionar.
É, talvez seja por isso que o Bruce Chatwin me marcou tanto: porque me mostra, na mesma passada, aquilo que eu sou, e tudo aquilo que eu não sou e gostaria de ser.