October 23rd, 2006

rosas

perdidos

Andei durante uma semana e tal a ver a primeira temporada da série Lost, de que me emprestaram uma cópia de segurança. A série não é uma obra-prima, o tema (quero dizer, a trama romanesca) não é terrivelmente interessante (uma mistura de Robinson Crosué com os reality shows do tipo Surviver, e o fundo X Files para dar o tom), mas é impecavelmente bem contada, tem um domínio absoluto da narrativa, e mesmo quando percebemos a sua estrutura, a forma como a urdidura se tece, mesmo assim não conseguimos deixar de nos seduzir.
Além disso cria no espectador um determinado ‘clima’, um estado de espírito, ao empurrar-nos, sempre com a aparente superficialidade do entretenimento televisivo (em que tudo tem de ser divertido e animado), para situações limite em que as nossas certezas e os nossos princípios são postos à prova.
Se do ponto de vista formal, Lost é uma lição de gestão do tempo e do suspense, do ponto de vista mais substancial a série é um valente exercício sobre o vazio e a barbárie. Mesmo o heroísmo, quando existe, é sempre relativo, transitório, nunca é um valor em si próprio, mas é sempre fruto da circunstância ou de um qualquer utilitarismo. De certa forma, a série fez-me lembrar o Ensaio Sobre a Cegueira, do José Saramago, a mesma dissolução moral, o império do relativismo. Há uma cena no Ensaio, o assalto ao supermercado, que é quase a matriz das peripécias que vivem as personagens de Lost.
Talvez por causa disso tudo, as personagens de Lost nunca são verdadeiras personagens, a sua psicologia é sempre muito superficial. Na verdade, mais do que personagens são meras sombras chinesas, nas quais reconhecemos um tipo mas não uma espessura. Não é que sejam previsíveis, mas nunca são intrigantes e, nessa medida, apaixonantes. Podemos simpatizar mais com uma ou outra, mas é um tipo de simpatia que não está muitos graus acima da que sentimos por cobaias de laboratório.

Li um dia destes (não sei onde, talvez num blog) que muito do que de mais interessante a indústria do entretenimento audiovisual norte-americana produz actualmente, passa mais pela televisão do pelo cinema. E se calhar é verdade. Algumas das recentes séries de televisão são verdadeiros prodígios quer ao nível do domínio da narrativa, quer na ousadia dos temas e das propostas. Nada que o cinema tenha produzido se assemelha, por exemplo, à série The L World, em termos de risco e capacidade de falar (e defender) um tema que ou ainda é puro tabu ou é objecto da maior discrição (look the other way). O mesmo se poderá dizer de Sex and The City. Ou é tão ousado na sua capacidade de destruir mitos da sociedade de classe média, que é a nossa, como a Desperate Housewives.
As minhas séries favoritas são Six Feet Under e The Sopranos. A primeira porque nunca vi, em televisão e raras vezes no cinema, personagens tão complexas, tão densas, que nos esquecemos que são meras personagens de ficção. Verdadeiras personalidades, o que é muito raro acontecer e revela uma mestria notável da parte do criador e dos escritores da série. The Sopranos porque é uma espécie de Shakespeare Revisited, em que o sublime e o abjecto do espírito humano não andam de mãos dadas, são na verdade as duas faces da mesma moeda, os dois rostos de um homem.