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innersmile
POSTAIS ILUSTRADOS

Tinha a vaga impressão de que a casa de N. ficava a quatro ou cinco quarteirões para oeste da rua onde desci do autocarro. Era uma típica rua londrina, as pesadas e cinzentas casas vitorianas recuadas um pouco dos passeios, gradeamentos de ferro pintados de negro, as luzes acesas nas vidraças por cima das portas, muitos correios de motocicleta, táxis negros e um ou outro autocarro. Não havia lojas, mas as portas abriam-se a um ritmo constante para entrarem ou saírem pessoas com ar de funcionários em serviços públicos.
Comecei a caminhar na que me parecia ser a direcção certa, mas depois de dois ou três cruzamentos, sempre à espera de chegar a uma das ruas da vizinhança que eu conheço melhor, cheguei à conclusão de que, afinal, não devia estar bem no sítio onde inicialmente julgara. Visualizei mentalmente o mapa da cidade, pensei que talvez estivesse um pouco deslocado para sul, e que por isso deveria caminhar para noroeste.
Prossegui o passeio despreocupado, pois conheço demasiado bem a cidade para me poder perder, e mesmo que fosse inadvertidamente parar a uma zona mais estranha, haveria sempre um autocarro ou o metro, para me levar rapidamente para zonas mais familiares. No entanto, comecei a sentir um pequeno incómodo pois apesar de continuar a percorrer ruas e quarteirões com uma paisagem urbana de um estilo que conheço há muitos anos, e que me habituei a pensar como minha, continuava a não desembocar numa das ruas que conheço e que me levaria, de forma segura e directa, para o meu destino.
Não estando um dia de sol radioso, o tempo estava seco e o frio perfeitamente suportável. Para descomprimir um pouco de uma certa tensão que acumulei nas últimas dezenas de metros, sentei-me numa enorme e pesada mesa de madeira, das que alguns pubs põem no passeio para servirem de esplanada. Pedi ao patrão uma stout, que bebi com vagar e prazer, para ganhar calma e tranquilidade.
Aos poucos, enquanto bebia a cerveja e fitava a rua e os seus transeuntes, uma ideia começou a ganhar forma no meu espírito. Nunca percebemos porque razão as ideias mais improváveis nos assaltam no lugares mais absurdos. Nem penso que tenha havido fosse o que fosse que de súbito tenha instalado a ideia no meu cérebro. Surgiu e pronto, como se viesse do nada. Ou melhor, não veio do nada, porque surgiu de mim, de uma das camadas mais recônditas da memória, mas o que quero dizer é que apareceu de forma espontânea, como alguma coisa que está enterrada e, sem haver nada que o provoque, começa lenta e subitamente a emergir à superfície.
Tirei da sacola um caderno e comecei a escrever.

O dancing-bar La Cumparsita fica numa esquina de duas ruas estreitas e sombrias do bairro do Soho. A porta da rua, que corta em diagonal o ângulo recto do edifício, é pintada de cor de rosa, tem uma cortina de renda, e é encimada por um cartaz descorado onde, dos dois lados do nome, se vêm os desenhos de pares dançando o tango.
Lá dentro, é uma sala minúscula, um L colado ao ângulo do prédio. A meio há um pequeno estrado, com um piano de parede. As luzes são ténues, e amareladas por abat-jours envelhecidos. De cada lado da porta há três mesas muito reduzidas, cobertas com uma toalha de pano com um padrão florido, cada uma com duas cadeiras com os espaldares encostados à parede. Ao fundo do braço esquerdo da sala, e encostado ao estrado da banda, há um bar de balcão alto em madeira, os copos pendurados de forma alinhada, uma estante de vidro em que as prateleiras superiores guardam garrafas seladas e cheias de pó.
A primeira vez que eu entrei no La Cumparsita foi há muitos anos. Transpus a porta, e mergulhei de chofre no volume exagerado da orquestra: piano, contrabaixo, violino e bandoneón. Um cantor, de fato puído e ar emaciado, aguardava a sua deixa para entrar na canção. A essa hora, um fim de tarde de Sábado, o dancing ainda estava vazio, apenas um casal de meia-idade sentado numa das mesas junto da porta. Eu fui para uma das mesas do fundo.
Depois de quatro canções o cantor retirou-se da sala, e entraram dois pares de bailarinos, muito jovens, de uma elegância magra e graciosa. Por essa altura, já todas as mesas estavam cheias de clientes, e havia casais de pé, encostados às paredes disponíveis. Os dois pares dançaram um tango ao som da orquestra, e retiraram-se. Quando a orquestra recomeçou a tocar, a maior parte das pessoas levantou-se e precipitou-se para o centro da sala, o único espaço, reduzido, disponível para dançar. Menos eu, claro, que não tenho nenhuma aptidão física para a dança, agravada por uma imensa incapacidade de perceber a mecânica dos passos do tango.
Foi então que uma das raparigas bailarinas entrou novamente na sala e dirigiu-se a mim, segurando-me pela mão. Sem palavras, apenas com a firmeza do gesto, puxou-me para o centro da sala, num convite, que admitia tudo menos uma negativa, para dançar. Eu sou um tipo grande, pesado, desprovido de agilidade, mas quando a bailarina encaixou o seu braço no meu tronco e me segurou com força, senti-me leve e aéreo, rodopiando estonteado pela minúscula sala do La Cumparsita.

Não sei que horas seriam quando saí de casa para levar o gato a passear à rua. Vivo no piso alto de um prédio de apartamentos de habitação social, que fica entre Camden Town e Regent´s Park, o gato nunca saiu de casa, e nem sei bem porque razão decidi levá-lo à rua. Pareceu-me todavia razoável e natural levar o gato a passear, como se fosse um cachorro. Sem trela, claro, não tenho trela para o gato, nem é muito vulgar ver gatos atrelados por coleira.
Mal cheguei à porta do rés-do-chão, larguei o gato. Equacionei a possibilidade de o perder, de o gato fugir mal se apanhasse à solta e de eu nunca mais o ver, mas sentia uma estranha e forte convicção de que isso não iria acontecer. Atravessei os pátios dos diversos edifícios que constituem o bairro, andando devagar mas despreocupado, e a verdade é que o gato ia andando colado às paredes, farejando tudo, mas sem nunca me perder de vista. O gato parecia completamente ambientado à vida exterior, e se não fosse o facto de estar sempre a confirmar, com olhares rápidos e intensos como os gatos lançam, a minha posição, poderia perfeitamente passar por um desses gatos que vivem sempre na rua, vidas de explorações solitárias e brincadeiras cúmplices.
Fomos andando até ao parque. Aos poucos fui-me esquecendo da presença do gato, mas sempre que lançava o olhar em redor à sua procura, ele aparecia breves instantes depois. Se não estava no sítio exacto para onde eu olhava, e onde ele deveria estar, aparecia logo a seguir, ou um pouco mais ao lado, sempre com o seu focinho satisfeito, e o seu olhar perscrutador e firme. Às tantas, quando já caminhava por uma das veredas do parque, vi-o sair de uns arbustos de bucho, cortados em formas geométricas, e, certamente por reflexo dos raios solares incidindo no relvado e nos arbustos, o gato, que é branco com uma mancha malhada em forma de coração no lombo, pareceu-me verde. Lembro-me de ter achado notável o gato estar verde, mas não fiquei perplexo ou chocado. Passados uns minutos, quando o vi dar uma pequena corrida no relvado aberto, já tinha retomado a cor habitual.
Saí do parque em Marylebone Road e, por distracção e reflexo irreflectido, entrei num autocarro que se dirigia ao centro. Só a meio da viagem me dei conta de que me tinha esquecido por completo do gato. Mais uma vez não fiquei preocupado. Pensei que ele iria ter comigo ao sítio onde eu me apeasse, ou então, se isso não acontecesse, que regressaria a casa. Quando saí do autocarro, muito perto do mercado de Convent Garden, procurei em redor o gato. Nada. Comprei um chá e fiquei sentado na base de uma coluna, bebendo e apreciando a vida sempre agitada e barulhenta do mercado. Passados uns minutos, lá vi o gato farejando curioso os caixotes de lixo, distraindo o seu olhar atento pelas imensas atracções e pólos de interesse que o mercado oferece, principalmente a um gato cheio de curiosidade.
Tinha já anoitecido quando saí do mercado. Nas ruelas em volta, os bares e os pubs enchiam-se de clientes, a tomar uma bebida no fim do trabalho ou a fazer horas para o teatro. Fui passeando distraído, entrando e saindo ao acaso dos bares, bebendo cerveja atrás de cerveja. Sempre que saía de um, procurava o gato e lá andava ele, distraído e curioso, sem me prestar grande atenção mas lançando ocasionais olhares confirmadores da minha presença.
Não sei que horas seriam já quando cheguei à porta da igreja de St Martin in the Fields. Estava apinhada até à porta e de dentro chegava o som de música barroca. Nessa altura eu estava já bastante ébrio e, depois de tentar, em vão, entrar na igreja, sentei-me num dos degraus de cimento sob o pórtico. Julgo que adormeci. Um sono pesado e embrutecido, próprio do estupor alcoólico. Quando acordei, já de madrugada, o gato dormia tranquilo aos pés da cama.
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