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a louca da casa
rosas
innersmile
Estou a ler um livro que há muito perseguia, A Louca da Casa, da espanhola Rosa Montero. O título é uma citação de Santa Teresa de Jesus, e refere-se à imaginação. O livro é um cruzamento de ensaio com livro de memórias, e trata da literatura e da sua escrita. É, digamos assim, um retrato de uma obsessão, que é tanto o gosto pela literatura como a compulsão da sua escrita, sobretudo da narrativa, do romance, que é a área literária da autora. Com humor, sempre num registo muito pessoal, que se enraíza na intimidade mas nunca a devassa, Rosa Montero conta histórias, faz reflexões, comentários, análise literária. Expõe o seu labor de escritora. Por vezes o tema do livro é o próprio livro.

Ontem li um trecho lindíssimo, que não resisto a copiar para aqui, apesar da sua extensão. Curiosamente, esta entrada aparece a seguir a uma outra que fala de baleias. Não me escapa, como é óbvio, a suave ironia de num caso se tratar de um cantor popular, e no outro de literatura. Por outro lado, ao ler o referido trecho, lembrei-me muito do livro de António Tabucchi, A Mulher de Porto Pim, de que já falei aqui no livejournal (é um dos meus livros preferidos) e que também trata de baleias. E é curioso, porque eu estava a ler o livro e, apesar de se identificar bem o lugar onde decorreu o episódio, ao largo da costa oeste do Canadá, estive sempre a pensar no mar dos Açores.

«Navegámos durante algum tempo até nos situarmos entre umas ilhotas; aí, o guia desligou o motor e permanecemos imóveis, embalados como bebés por um mar manso. Estava uma manhã tépida e luminosa, as ilhotas brilhavam, verdes, no horizonte, e o silêncio pousava sobre os nossos ombros como um véu, exaltado pelo pio de uma gaivota e pela água que lambia a Zodiac. Estivemos assim, sem nos movermos e sem dizermos uma palavra, durante mais de quinze intermináveis minutos. E, de súbito, sem nenhum aviso, aconteceu. Um estrondo aterrador agitou o mar ao nosso lado: era um jorro de água, o jorro de uma baleia, poderoso, enorme, espumante, uma tromba que nos empapou e que fez ferver o Pacífico à nossa volta. E o ruído, esse som incrível, esse bramido primordial, uma respiração oceânica, o sopro do mundo. Essa sensação foi a primeira: ensurdecedora, deslumbrante; e, logo a seguir, emergiu a baleia. Era uma humpback, uma corcovada, uma das maiores. E começou a vir à superfície mesmo ao nosso lado, apenas a dois metros da borda, porque os cetáceos são seres curiosos e querem investigar os estranhos. E assim, primeiro emergiu o focinho, que imediatamente tornou a meter debaixo de água; e depois foi deslizando tudo o resto, numa onda imensa, um arco de carne colossal sobre a superfície, carne e mais carne, brilhante escura, elástica e ao mesmo tempo pétrea e, a determinada altura, passou um olho, um olho redondo e inteligente que se cravou em nós, um olhar intenso vindo do abismo; e depois desse olho comovedor ainda continuou a passar muita baleia, uma parede musculosa eriçada de crustáceos e de algas barbudas e, no fim, quando já estávamos sem fôlego diante da enormidade do animal, ergueu ao alto a cauda gigantesca e mergulhou-a com elegante lentidão na vertical; e em toda esta deslocação do seu corpo enorme não levantou a mais pequena onda, não provocou quaisquer salpicos, não fez nenhum ruído além do cicio suave da sua carne monumental acariciando a água. Quando desapareceu, logo depois de ter mergulhado, foi como se nunca tivesse lá estado.»

É ou não é um belíssimo naco de prosa? Rosa Montero faz-nos viver o episódio como se o tivéssemos presenciado, mas ao mesmo tempo provoca-nos uma quase dor por não termos de facto sido nós a vivê-lo, e ainda nos instiga um entusiasmo juvenil e aventureiro para irmos depressa metermo-nos num barco e encontrar uma baleia, esta baleia, a sua baleia.
Mas Montero usa este episódio, este encontro deslumbrante, como uma metáfora: «a visão da obra tem muito a ver com a visão entrecortada, hipnotizadora e quase aniquiladora, de tão bela, daquela baleia do Pacífico. Com a escrita passa-se o mesmo: pressente-se com frequência que, no outro lado da ponta dos dedos está o segredo do universo, uma catarata de palavras perfeitas, a obra essencial que dá sentido a tudo. (…) mas depois, antes de termos sido capazes de calcular o seu volume e a sua forma, antes de termos podido compreender o sentido do seu olhar penetrante, a besta prodigiosa submerge e o mundo fica quieto e surdo, e tão vazio.»