October 16th, 2006

rosas

(no subject)

Ontem à noite estava a zapar pela tv quando vi na tvi a Lena de Água a cantar uma canção velhinha do Roberto Carlos. Eu já sabia que estava a dar um programa qualquer na tvi daqueles que têm um palco com o chão muito brilhante, e uma das coisas que a minha sagacidade de espectador de televisão me ensinou foi a evitar programas em que o chão é tão polido e brilhante que reflecte como um espelho.
Mas era a Lena de Água, e eu não resisto à Lena e àquela maneira doce que ela tem de cantar e que é a maneira de cantar em português mais doce deste lado do Atlântico. Além de que é tão raro ela aparecer na televisão que não se pode desperdiçar. A Lena estava a cantar com um rapaz que eu não conheço, que cantava muito alto e não deixava ouvir a voz da Lena, mas mesmo assim dava para ouvir nos intervalos em que o rapaz se calava.
Além disso, e como já disse, a canção em causa era uma muito velhinha do Roberto Carlos, sobre as baleias. Aí por volta de 1981 ou 82, eu estava muito apaixonado por uma rapariga que foi a minha primeira namorada, e quando digo a primeira é mesmo isso que eu quero dizer, a primeira. No Verão, fomos passar férias ao Algarve e o Roberto Carlos deu um espectáculo em Portimão, creio que no estádio do Portimonense, e nós fomos ver. Gostávamos ambos do Roberto Carlos (ela mais do que eu) e além disso aquele clima de romantismo do Roberto era a banda sonora ideal da nossa paixão.
De regresso das férias, ela ofereceu-me o long play (ah, que lindo!, um long play) que o Roberto veio cantar no espectáculo, e que era aquele que tem a canção ‘Emoções’, a ‘Tudo para’ e a ‘Cama e Mesa’, todas muito apropriadas para a paixão que vivíamos.
A minha canção preferida desse disco, no entanto, sempre foi As Baleias, um hino ecologista muito antes da ecologia ser uma moda ou uma agenda. Não a ouço há muitos anos, quer dizer ouvir de propósito, pôr o disco a tocar e prestar atenção, mas ainda sei o refrão todo de cor.
O Roberto Carlos é olhado, em Portugal, com aquela sobranceria com que nós olhamos para tudo o que não tem caução de seriedade cultural. Muita gente o considera um cantor pimba, aquilo que no Brasil se chama brega. A verdade é que, juntamente com o Chico e a sua A Banda, as minhas memórias mais antigas de música brasileira são canções do Roberto, do tempo da jovem guarda, e que eu ouvia quando ia passar férias a casa da minha prima em LM, num toca-discos portátil, castanho, em que a tampa era o altifalante.

Não é possível que você suporte a barra
De olhar nos olhos do que morre em suas mãos
E ver no mar se debater em sofrimento
E até sentir-se um vencedor nesse momento.

Não é possível que no fundo do seu peito
Seu coração não tenha lágrimas guardadas
Pra derramar sobre o vermelho derramado
No azul das águas que você deixou manchadas.

Seus netos vão te perguntar em poucos anos
Pelas baleias que cruzavam oceanos
Eles viram em velhos livros
Ou nos filmes dos arquivos
Dos programas vespertinos de televisão.

O gosto amargo do silêncio em sua boca
Vai te levar de volta ao mar e a fúria louca
De uma cauda exposta aos ventos, em seus últimos momentos
Relembrada num troféu em forma de arpão.

Como é possível que você tenha coragem
De não deixar nascer a vida que se faz
Em outra vida que sem ter lugar seguro
Te pede a chance de existência no futuro.

Mudar seu rumo e procurar seus sentimentos
Vai te fazer um verdadeiro vencedor
Ainda é tempo de ouvir a voz dos ventos
Numa canção que fala muito mais de amor.