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(no subject)
rosas
innersmile
Ontem à noite fui à Livraria Almedina do estádio assistir à sessão de lançamento de um livro, Anos Inquietos – Vozes do Movimento Estudantil em Coimbra (1961-1974), da autoria de dois investigadores da universidade de Coimbra, e que consta, em substância, de entrevistas a 7 protagonistas do movimento estudantil de Coimbra nos anos 60, das chamadas crises académicas.
Eu ainda só tive oportunidade de desfolhar o livro, mas achei-o muito interessante, não tanto, mas também, por causa do tema das crises académicas, mas porque foca um lado, e um grupo de pessoas, da cidade de Coimbra que é dos mais interessantes. Além disso foca uma geração (ou duas, enfim) que é a protagonista do momento actual, são eles os principais actores nomeadamente na vida cultural da cidade, é a geração com que eu tenho de lidar profissionalmente, algumas delas são pessoas com intervenção política, enfim, toda uma série de razões que tornam importante conhecer o percurso e a história e a origem desta geração coimbrã de 60.
Apenas a título de exemplo, foi para mim uma surpresa, porque nunca lidei com as crises académicas, não as vivi, constatar como por exemplo as pessoas do meio profissional onde me movimento ainda são, ou eram até há pouco tempo, tão marcadas pelas posições que tiveram nas crises académicas, sobretudo na de 1969. Há verdadeiras clivagens entre as pessoas em função, por exemplo, de terem feito greve ou não aos exames.
Voltando à sessão de lançamento do livro, foi uma coisa curiosa, sobretudo porque permitiu o reencontro de muitas pessoas que não se viam há muitos anos, de tal forma que era complicadíssimo ouvir os participantes na sessão, de tal forma o som das conversas dominava a sala. Eu, como ninguém me conhece, faço como o Zelig e tento confundir-me com as estantes. O que tem a vantagem de me permitir ouvir as conversas e prestar atenção ao que se vai passando.
O mais interessante da sessão foi reconhecer uma série de caras, pessoas que eu conheço de outros círculos, e que me permitiu fazer assim uma espécie de recenseamento dos ‘coimbrinhas’ que participaram no movimento académico, o que explica e dá a perceber certas posições que por vezes essas pessoas tomam na vida pública ou profissional.

Quanto às intervenções propriamente ditas, e do pouco que a muito custo se foi conseguindo ouvir, e para além, obviamente, do interesse das histórias e dos testemunhos, chamou-me particularmente a atenção a crítica violenta que pelo menos um dos participantes fez à praxe actual. O meu tempo na universidade foi o da reintrodução das praxes, e eu fui fortemente anti-praxista. Acho que pus uma vez uma capa aos ombros, ou melhor, deixei que ma pusessem, e ainda hoje tenho vergonha desse momento de ébria fraqueza. Vergonha só porque preferia hoje poder dizer com imaculada verdade que nunca tinha sequer posto uma capa aos ombros.
Hoje a praxe é-me indiferente. Não me identifico, não gosto, e, para falar com franqueza, não a percebo. Mas não a condeno. Quer dizer, condeno os rituais de violência e humilhação, mas, tanto quanto julgo saber, eles não são muito frequentes na academia de Coimbra. O que me soou estranho na intervenção foi essa condenação da praxe (até um pouco deselegante, dado que na primeira fila estava o actual presidente da AAC, devidamente fardado), e os termos em que ela foi feita. Mais do que uma condenação política ou cultural, foi uma condenação moral, ou pelo menos foi o que me pareceu, pelos termos em que foi feita. Eu posso ter um juízo crítico em relação à praxe, mas não tenho de achar que ela devia acabar, que foi o que, essencialmente, foi dito. Mas, pensando bem, este sentido de superioridade moral (antigamente falava-se na superioridade moral dos comunistas) é um dos tiques que permanece desta geração de 60.
O que é curioso, porque, olhando para eles, vendo aquele aspecto típico, e estou a generalizar claro, de quem se consumiu em cigarros, uísque e conquistas românticas, não se percebe bem porque é que condenam os outros que se consomem em charros, cerveja e sexo casual. É só uma questão de ‘classe’?