October 8th, 2006

rosas

bernardo sassetti+mário laginha+pedro burmester

Foi, como se esperava, uma noite maior a que aconteceu ontem no palco do Europarque, em Santa Maria da Feira. Bernardo Sassetti, Mário Laginha e Pedro Burmester são três dos maiores pianistas portugueses, os dois primeiros seguramente que o são na sua área musical, o jazz, Burmester um dos maiores da clássica.
O concerto resulta, em primeiro lugar, porque é pensado, é estruturado, é organizado. Não resulta da mera soma de três pianos, mas é um ponto de confluência possível entre músicos que dominam linguagens musicais diferentes, com uma proposta que não é muito vulgar em termos musicais. Por esta razão, o concerto organiza-se numa sucessão equilibrada de solos, duetos e trios. E nem sempre é óbvio, ou seja os duetos mais jazzisticos ficarem a cargo da dupla Laginha-Sassetti e os mais clássicos com Burmester-Laginha. E a prova é o altíssimo nível da interpretação temas das Variações Goldberg por Burmester-Sassetti, que forma, em dois momentos diferentes do concerto, momentos de particular elevação.
Laginha e Sassetti escolheram composições próprias para os solos (respectivamente, Fado e Tema Frei Luís de Sousa), e Burmester arrasou com Mozart.
Esta aventura em trio é devedora, como não poderia deixar de ser, das anteriores parcerias dos músicos envolvidos, sobretudo do fabuloso disco ao vivo de Laginha e Burmester, Duetos, de onde provêm Souvenirs, de Samuel Barber, e o apoteótico e sempre muito belo Bolero de Ravel. Do disco de Laginha e Sassetti vêm A Menina e o Piano, do primeiro, e o Sonho dos Outros, de Sassetti.
Para além das referidas, estiveram ainda no alinhamento Bela Bartok, com Movimento Perpétuo, Vijag de A. Hovhaness, e Traz Outro Amigo Também de José Afonso.
Três encores, mais um do que o ‘previsto’. Num dos encores, foi tocada em trio uma composição do Sassetti, um baião ou coisa que o valha, entusiasticamente brasileiro, e que eu já conhecia mas não consigo localizar de onde, tenho a sensação de que já tive um disco na mão com esse tema mas não sei qual, ou pelo menos já o li escrito num alinhamento de um concerto. Ainda tive a esperança de que, ao menos em encore, fosse tocado El Salon México, de Aaron Copland, do disco de Burmester e Laginha, e que é a minha versão favorita de uma das minhas composições preferidas, mas népia.
Em suma, foram mais de duas horas de música fantástica, com os músicos (mais Laginha e Sassetti) a demonstrarem uma alegria e uma exuberância transbordantes (apesar de no Bolero a exuberância ter ficado quase toda a cargo de Burmester), e com o público a ouvir em silêncio a aplaudir com força (mesmo nas mudanças de andamento nas peças de Barber e de Bach, o que, dadas as características deste concerto, até é compreensível).


Inventário
Pedro Burmester – J.S. Bach, Variações Goldberg
Pedro Burmester Mário Laginha – Duetos
Mário Laginha – Canções e Fugas
Mário Laginha Maria João – Lobos, Raposas e Coiotes
Mário Laginha Maria João – Mumadji
Mário Laginha Maria João – Undercovers
Mário Laginha Bernardo Sassetti (Quatro Mãos)
Bernardo Sassetti – Nocturno
Bernardo Sassetti – Índigo
Bernardo Sassetti – Ascent
Bernardo Sassetti - Alice