October 3rd, 2006

rosas

I want to feel sunlight on my face

Até chorei. Palavra. Quer dizer, não desatei a chorar como uma Maria Madalena, mas pronto!, fiquei todo comovido e com os olhos rasos de água. E 3-três-3 vezes. A primeira com o One, a segunda com o Satellite of Love cantado em tele-dueto com o Lou Reed e a terceira com Where The Streets Have No Name. Não é que sejam as minhas canções preferidas, mas acho que foi nesses três momentos em que eu me consegui transportar para um longínquo Sábado de Maio do ano de 1993.
Estou a falar, claro, de Zoo TV, o dvd com a gravação do concerto ao vivo dos U2, registado em Sidney, em Novembro de 93, no término da digressão que passou por Lisboa no dia 15 de Maio desse ano.
Eu acho que não faz nenhum sentido escolher o melhor concerto que um tipo viu na vida. Normalmente, quando um concerto é muito bom e nos enche o papinho, saímos dele sempre convencidos que foi um dos melhores que vimos. Mas esse concerto dos U2 foi muito especial. Porque eu nunca tinha visto nada do mesmo calibre em termos de aparato lumino-técnico (há que tempos que não ouvia falar neste termo, desapareceu do nosso vocabulário), e diga-se a verdade que vi muitos poucos outros depois. Depois porque toda a parafernália de luz e som e imagem não era puramente para 'épater le bourgeois', para deslumbrar as hostes (embora também fosse para isso, é claro), mas tinha um sentido, qual fosse o de fazer um comentário à explosão e à saturação da imagem, sobretudo televisiva, no domínio comunicacional. O mundo era um lugar estranho nesses princípios da década de noventa (é sempre, como é óbvio), com o desabar do mundo dividido que sempre tínhamos conhecido e a emergência de uma nova ordem mundial, e os U2 comentavam igualmente essa estranheza.
Depois porque com Achtung Baby e principalmente com Zooropa (gravado e editado durante a digressão), os U2 estavam a operar mais uma alteração no tipo (ou, se calhar com mais propriedade, no conceito) de música que faziam, regressando à Europa, à nova Europa que resultou do fim do Muro e dos regimes de leste, mas ao mesmo tempo anunciando o tempo da cultura global. Não tanto ‘musica do mundo’, talvez mais música do fim do mundo, ou do mundo que está para vir.

Quando olhamos para as coisas à distância dos anos, sobretudo para aquelas que vivemos com maior intensidade, temos sempre a sensação nostálgica de que havia ali qualquer coisa que se perdeu. Naturalmente, a única coisa que se perdeu foi aquilo que nós próprios perdemos, e a inocência é a primeira vítima do tempo. Por isso, muito provavelmente, a razão porque me comovi ao ver o dvd do concerto do U2 em Alvalade é porque me lembrei, não tanto das emoções que senti quando estava a assistir ao vivo ao concerto, mas do tipo que estava aos pulos nas bancadas do estádio, a olhar embasbacado para as luzes, e de como já faz um certo tempo que não estou com ele.
rosas

por um canudo

Não me queixo dos custos da interioridade. Já me queixei, e muito, mas neste momento as coisas até não estão assim tão mal. Apesar de tudo, apesar da ressaca e da crise, vão acontecendo coisas no domínio da arte e da cultura na cidade de Coimbra. Além disso, Coimbra está a duas horas de carro de Lisboa e a uma do Porto, dá perfeitamente para ir assistir a um espectáculo ou um concerto, e os bilhetes já se podem comprar com toda a facilidade e conforto da net ou da bilheteira da Fnac.
Mas apesar disso ainda há ocasiões em que me apetece bater com as portas e dar pontapés nos caixotes do lixo. E esta é uma delas. Amanhã, às dezanove horas, no grande auditório da Gulbenkian, a Anne Sofie von Otter vai apresentar ao vivo o seu último disco I Let The Music Speak, integralmente composto por canções de Benny Andersson, um dos compositores dos Abba. Segundo entrevista hoje de manhã na Antena 2, além das canções do disco, von Otter apresenta ainda repertório de Kurt Weill e canções de cabaret.
Eu à medida que vou ouvindo o disco vou gostando cada vez mais dele e ficando cada vez mais enfeitiçado pela voz perfeita da ASvO, e tenho pena de não saber há mais tempo do concerto (soube dele este fim de semana, através da leitura dos jornais), se não tinha tentado organizar as coisas de forma a ir. Além de que segundo informação da bilheteira da Gulbenkian, a lotação está esgotada (mas como nem tudo é mau, já tenho bilhete para ir no próximo Sábado a um dos concertos que mais vontade tinha de assistir.)
Entretanto, logo no Ritornello, às 18 horas, há mais ASvO na Antena 2.