September 30th, 2006

rosas

lady in the water

De certa forma é como se M. Night Shyamalan, com Lady In The Water quisesse fazer o seu ET, professando a sua inabalável fé no poder das estórias, dos contos de fadas; no poder imenso que as estórias têm de nos curar, de nos revelar a nós próprios, de nos fazer crescer melhores. Se acreditarmos numa estória, não necessária ou principalmente na verdade dos factos que ela narra, mas na sua verdade enquanto produto da imaginação e da necessidade de a partilhar, tocamos o melhor de nós próprios.
Shyamalan é um fantástico contador de histórias. Acredita nelas e sabe contá-las. Tendo em atenção o que tem sido o seu percurso de realizador de filmes, não admira que não tenha resistido ao impulso de contar o seu próprio conto de fadas, uma história de sereias e monstros, e das pessoas frágeis que têm o raro privilégio de entrar em contacto com esses mundos fantásticos. Segundo li, na génese deste filme está a história infantil, a bedtime story, que Shyamalan inventou para as suas filhas.
Como disse, Shyamalan é um fantático contador de histórias. Tem um domínio da imagem, da sequência, do enquadramento, que transformam os seus filmes em puro gozo. Como todos os grandes mestres do cinema americano, Shyamalan domina na perfeição a arte de contar histórias em imagens.
Mas falta-lhe, não sei, grandeza, amplitude de voo. Os seus filmes são sempre muito agarrados à história, à complexidade, sempre muito sinuosos e explicativos. São muito armados, como se arma um esquema complicado. É um bocadinho como alguns jogos que há, em que há tantas regras e tantos símbolos e tantos níveis, que um tipo a meio desiste de sequer tentar perceber qual é o objectivo do jogo. E é isto que de certo modo mata o cinema de Shyamalan, ele nunca contar com a capacidade do espectador pegar no seu filme e refazer a sua própria história. Como se Shyamalan esperasse que os seus espectadores fosse apenas isso mesmo: espectadores, e não participantes activos nesse processo sempre interactivo que é contar uma história. Parafraseando o anúncio, é como se Shyamalan dissesse que «o filme é meu, só meu, e há-de ser só meu até ao fim». Isso era demasiado notório nos seus filmes anteriores, com o habitual twist final que servia para deixar os espectadores completamente ‘às escuras’.
Uma coisa que achei particularmente frágil no filme foi a personagem da narfa, Story (o nome, é claro, não podia ser mais explícito). Que aliás nem chega bem a ser uma personagem. Vê-se que foi particularmente criada para a actriz Bryce Dallas Howard, e que é um desenvolvimento da personagem que a actriz tinha em The Village. Como se Shyamalan tivesse ficado tão fascinado com o lado extra-humano de Ivy que tenha tido necessidade de retirar à personagem todo o seu lado humano; o problema é que deitou o bebé fora com a água do banho e ficou sem personagem. Paul Giamatti faz mais um trabalho notável, ele é todo o lado credível do filme. É sempre uma alegria ver o Jeffrey Wright (um actor tão genial quanto raro), uma surpresa é o Freddy Rodriguez, o Rico de Six Feet Under, a fazer um dos papeis mais estranhos do filme, e a presença de Shyamalan como actor (e não apenas os cameos que costuma fazer à la Hitchcock), a sublinhar o lado pessoal deste projecto.
Parece que casquei demasiado no filme e não queria nada dar essa impressão. Porque os filmes de M. Night Shyamalan me divertem imenso, e isso aconteceu de novo com este. Sobretudo porque, como já referi, Shyamalan filma muito bem, as suas imagens são lindíssimas, sobretudo os enquadramentos, são perfeitos e ricos, cheios de substância. E, na minha opinião, é isso fundamentalmente que o cinema nos deve dar em troca do preço do bilhete.