September 29th, 2006

rosas

A primeira sensação é de estranheza: Cê, o mais recente disco de Caetano Veloso, soa diferente do que estamos habituados, mas inegavelmente familiar. Ainda não ouvi muitas vezes o disco, mas penso que essa estranheza vem, em primeiro lugar, da falta daquilo a que poderemos chamar, apenas por mera comodidade descritiva, como o ‘sistema Morelembaum’, uma sonoridade que se começou a definir em Circuladô e onde eram notórias as influências das paisagens sonoras de Ryuiki Sakamoto e de Arto Lindsay, que aliás participaram nesse disco. Circuladô, e sobretudo Circuladô Vivo, e ainda Livro, todos discos muito marcados pela parceria com Jacques Morelembaum, são, para mim, obras-primas absolutas.
Cê é composto por 12 canções, todas de autoria integral de Caetano, e todas elas arranjadas para trio de guitarra, baixo e bateria. Isto dá ao disco uma simplicidade muito grande, e dá-lhe ainda um travo tropicalista, razão porque referi, logo de início, que o disco, sendo estranho, é igualmente familiar.
Caetano continua em forma, e isso significa que continua a arriscar e que mantém, como sempre, uma incrível atenção ao que de novo se passa na música. E a conseguir sempre incorporar isso no seu próprio estilo, na sua própria forma de criar e interpretar. E continua a fazer grandes letras. Uma das minhas canções preferidas deste Cê é ‘minhas lágrimas’, uma balada triste e magoada cantada no típico falsete de Caetano e que começa com este verso lindíssimo: «desolação de los angeles». Dito assim pode parecer banal, mas cantado com o sotaque brasileiro e com o sentido e a entoação que Caetano lhe dá, é todo um poema, é todo um romance, é uma frase que abre um campo infinito de histórias.