September 26th, 2006

rosas

513.2

Comecei a ler (finalmente, porque tenho o livro já há alguns meses) Crónica da Rua 513.2, o mais recente romance de João Paulo Borges Coelho, um dos meus escritores dilectos de língua portuguesa, nomeadamente da literatura de Moçambique. Vou a pouco menos de meio, mas foi o livro do autor em que mais me custou a entrar, achei, pelo menos nas primeiras impressões, que lhe faltava envolvimento romanesco, que era tudo muito projectado.
Desde o princípio que o meu personagem preferido sempre foi o monhé Valgy. Ontem li um capítulo todo dedicado a Valgy, a quem as crianças chamam a xiphunta, ou mais propriamente à sua loja de secos e molhados situada numa ruela da baixa perto do bazar. Cerca de dúzia e meia de páginas assombrosas, de uma enorme riqueza descritiva, que nos transportam (numa viagem através da geografia mas também do tempo) para uma experiência sensorial extrema e radical. O autor começa logo por afirmar que a loja, sendo pequena, tinha um pé direito de fazer inveja às catedrais. Está dado o tom.
Segue-se descrição atrás de descrição. Primeiro os panos, que Valgy faz voar de lá de cima das prateleiras até aterrarem nos seus braços: as cambraias (tão finas que não têm textura que suporte a cor), as sedas e os cetins, as capulanas. Depois os temperos (na linguagem de Valgy, que é a que eu também utilizo; para as clientes são condimentos, e para os livros de história são especiarias), os chás, os cafés, os tabacos. Os achares, os chutneys, os balchões. As frutas, acondicionadas nas redes. Só consigo enumerar, falta-me o talento do autor para descrever os odores, os aromas, as texturas, os sabores, as cores, as formas.
Como disse, saímos dessas páginas tontos com a riqueza e a luxúria dos estímulos sensoriais. À procura da memória desses odores, dos sabores, dos tecidos. Uma loja de monhés na Ilha de Moçambique, outras em Nampula, com as paredes forradas com rolos de tecidos. As cantinas da infância. A loja de cafés que havia no Largo do Poço do Bispo (a cujas montras se encostavam as prostitutas). A Feira de São Cristóvão (a feira dos Paraíbas) que visitei com o Saint-Clair, e onde havia balcões só com especiarias, tabuleiros enormes de cores fortes e cujo cheiro se fazia sentir pelos corredores. O centro comercial que fica no Martim Moniz em Lisboa, e que entre lojas dos chinas e tráficos vários, lá tem as cantinas dos indianos, com todos esses sabores e odores que saltam da loja do Valgy para as páginas do livro de João Paulo Borges Coelho. Esse centro comercial, que infelizmente não visito há muito tempo e onde gostava tanto de fazer compras, é um pedaço do mundo em Lisboa. O pedaço mais quente, mais exótico, mais austral, mais estrangeiro, não só da capital, mas de Portugal inteiro.