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(no subject)
rosas
innersmile
«Se não fosse os animais gostarem de Jamal quando ele era pequeno, talvez não tivesse acabado por ir parar à prisão. Mas gostavam – da sua presença silenciosa na rua, à sombra de uma palmeira escanzelada, ou sentado na velha banheira, no pátio, o ouvido encostado ao transístor, escutando uma qualquer melodia nasalada sintonizada em Beirute. Os cães em particular ficavam pasmados diante do rapaz do rádio. Talvez lhes desse a impressão de que só a caixa preta junto ao ouvido falava. Ele raramente dizia alguma coisa, parecendo como que uma peça mais do puzzle formado pelo mundo natural, não muito diferente de uma romãzeira ou de uma chuvada de Inverno, ou então uma daquelas milhentas curiosidades impregnadas de cheiros, que eram só o que eram e nunca poderiam ser entendidas ou mudadas, embora as pudessem lamber, arranhar e farejar. Ou talvez fosse o facto de ele estar ali simplesmente especado, por vezes completamente imóvel, de boca aberta, que o tornava tão perfeito para criaturas de focinho e orelhas caídas, como uma imagem-memória de que não conseguiam desfazer-se e, mesmo que pudessem, também não quereriam.»

- Richard Zimler, À PROCURA DE SANA (trad. José Lima)