September 22nd, 2006

rosas

world trade center

Acabo de chegar a casa de ver World Trade Center, o filme de Oliver Stone sobre a tragédia do 11 de Setembro em Nova Iorque. O filme, como era de esperar, comoveu-me. Eu estava com algum receio, o Oliver Stone não é propriamente o meu realizador preferido, mas acho que ele fez um filme interessante e com um cuidado exemplar.
Em primeiro lugar, porque, e isso no OS é raro, o filme não tem uma agenda política. Ou pelo menos não tem uma agenda de debate político interno nos EUA. Mas mesmo um certo sentimento de 'americanismo' (centrado, por exemplo, no valor da família e da unidade da nação na hora da tragédia), se bem que presente, está bastante subtil. E subtileza é uma palavra que eu achava que não fazia parte do léxico de Stone!
O grande mérito do filme é perspectivar o desastre do WTC do ponto de vista do cidadão, ou seja, contar uma tragédia humana. O filme está destituído de heroísmo, ou pelo menos daquele heroísmo cinematográfico à Super-Homem. O único heroísmo presente no filme é o dos homens tentando sobreviver e tentando lidar com a tragédia indizível.
Apesar de, como referi logo de início, me ter comovido, não está um filme lamechas, de lágrima fácil, de rodriguinho a puxar ao sentimento. Mas Stone consegue dar tão rigorosamente a medida e o peso da incapacidade e da impotência do homem perante o que estava a acontecer, que é impossível não ficarmos com um nó na garganta.

O filme centra a sua atenção na história de dois homens, um sargento e um agente de um grupo da força policial da autoridade portuária de Nova Iorque, que estavam no piso térreo do WTC quando desabou a primeira torre e que ficaram literalmente sepultados vivos por baixo de toneladas de escombros. Reconheci imediatamente a história, de que recordava muitos pormenores. Num livro que li o ano passado, 102 Minutos, de que falei aqui no innersmile, a história destes dois homens é contada no epílogo, a encerrar o relato horrífico do que sucedeu no interior das torres gémeas desde o impacto do primeiro avião até ao segundo desabamento. McLoughlin e Jimenez foram duas de apenas vinte pessoas que foram resgatadas com vida dos escombros do WTC, onde morreram perto de três mil pessoas. O que dá, penso eu, bem a medida do que foi o infernal teste de sobrevivência a que estes dois homens foram sujeitos.
E, para mim, o melhor do filme é quando ele acompanha, de muito perto e sempre no tom adequado, a experiência dos dois homens, o modo como lidaram com a situação e um com o outro. O pior foi a história do marine que os encontrou, e em relação ao qual Stone não resistiu a criar um clima psicológico totalmente desnecessário e que, inclusivamente, mina a verosimilhança da reconstrução da tragédia.

O filme de Stone versa especificamente a tragédia do WTC. Apenas de forma muito fugaz (os bombeiros do Wisconsin) são referidas as causas da tragédia. Mas como é óbvio, trata-se de um filme sobre o 11 de Setembro, e sobre os modos como a América se tenta curar da imensa ferida que foi o 11 de Setembro. Como já tinha sido o caso do filme United 93, que estreou muito recentemente. E se me parece que United 93 era um filme em que essa missão curativa era muito mais assumida e intencional (tratava-se objectivamente de resgatar a memória e o papel que os passageiros desse voo tiveram no desenrolar da crise do 11 de Setembro), WTC, o filme de Stone, porque se move muito mais estritamente no campo e nas regras da produção cinematográfica norte-americana, e porque proporciona uma imagem (ainda que ficcional) do interior do desastre, pode todavia ser muito mais eficaz nesse processo de cicatrização da grande ferida da América.