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o elogio do livejournal
rosas
innersmile
Já tenho pensado muitas vezes em sair do livejournal e arranjar um blog numa outra plataforma qualquer. Mas há três razões porque nunca o fiz e, tanto quanto consigo ver daqui, não me parece que o vá fazer. A primeira é porque, apesar de tudo, o livejournal permite-me ter a ilusão de que o innersmile não é um blog, mas assim uma espécie de diário on-line, permitindo-me controlar melhor um certo equilíbrio entre o facto de ser uma ferramenta de comunicação e interacção pública (em que nunca conseguimos exactamente saber quem nos está a ler) e a necessidade que eu tenho de que este registo ande sempre a pisar o risco da intimidade (mas evitando o confessionalismo e a exposição).
A segunda razão é porque o livejournal me garante que vai haver alguém para ler o que escrevo. Mesmo que o pessoal não goste de ler textos muito longos, mesmo que leia só de raspão, mesmo que perca interesse ao fim de duas linhas, o facto de haver lista de amigos e de as entradas dos utilizadores aparecerem na página dos amigos, garante que alguém vai dar uma vista de olhos. Mesmo que sejam só uma ou duas pessoas. O desafio sério é a questão do feedback, de não se ficar demasiado dependente da existência de comentários. Mas mesmo que haja poucos comentários, acho que nunca se tem a noção de que estamos sozinhos no ciberespaço, há sempre um certo aconchego, a sensação (mesmo que seja ilusória) de que o livejournal é uma coisa colectiva, comunitária, que não somos como aquele tipo que andava (não sei se ainda anda) no Rossio de megafone a anunciar a vinda do Messias.
Finalmente a terceira razão. Para além de nos dar a aparência de não estarmos sozinhos no ciberespaço, o livejournal cria-nos ainda a ilusão de não estarmos desprotegidos e entregues a nós próprios. O livejournal funciona, pelo menos do ponto de vista psicológico, como uma espécie de casa onde os visitantes têm de entrar antes de poderem aceder ao quarto onde estamos sentados a escrever e a fazer strip-tease. O livejournal retira visibilidade. Pode parecer contraditório, porque um tipo quer ser lido, e funciona um pouco aquela lógica de quantos mais leitores melhor. Mas a verdade é que uma pessoa escreve sempre em primeiro lugar para si própria, mesmo que seja um blog; e quantos mais leitores tem, mais condiciona a sua escrita em função deles. Como já disse anteriormente, isto só me dá gozo se tiver um registo intimista, e só consigo manter esse registo se não tiver a sensação de que estou todo nu no meio de um campo de futebol cheio.
Eu sei que há algumas pessoas de fora do livejournal que lêem o innersmile, e que algumas delas até são dos leitores mais atentos e generosos. E também sei que o innersmile aparece com links numa data de blogs, mas isso nem conta porque a maior parte desses links são copiados de outros blogs e a maioria do pessoal não os lê (e ainda bem). Mas apesar disso tudo o livejournal permite um certo resguardo, uma cortina entre o innersmile e o vasto mar de pessoas que escrevem e lêem e comentam e polemizam na blogosfera. Não é que eu tenha a pretensão de que o pessoal que lê o innersmile venha de propósito ao livejournal para o ler, não é isso; mas de certa forma o innersmile está mais escondido, e não é tão fácil tropeçar nele.

Estas reflexões surgiram da necessidade de sistematizar as razões porque não saio do livejournal. Porque, como comecei por dizer, muitas vezes me apetece fechar o innersmile e ir escrever para outro lado. Mas a verdade é que a blogosfera me irrita profundamente. Quer dizer, eu acho fantástica esta possibilidade que a net dá de cada pessoa, apenas porque lhe apetece, poder criar uma plataforma de comunicação onde põe os conteúdos que lhe dá na real gana e onde a sua capacidade de contactar os outros, de lhes tocar, depende exclusivamente do que quiser ou for capaz. E acho que a net, e a blogosfera em particular, é um espaço de liberdade que, pelo menos até ver, deve permanecer intocável de qualquer censura ou controlo.
Mas irrita-me a superficialidade com que as pessoas dizem coisas que podem ofender os outros. Irrita-me a feira das vaidadezinhas, aquela sensação de que ter um blog é uma coisa importante, e que só por ter um blog sou praticamente compadre e colega de copos do Shakespeare. Irrita-me ainda mais essa presunção ligada à superficialidade. Irrita-me aquela coisa de eu dizer uma barbaridade, insultar um tipo qualquer que não conheço, e depois, com a maior das calmas, pedir desculpa e ir a correr alterar o post original. Não quero dar exemplos, porque o que menos quero é entrar em polémicas e discussões, mas tenho a certeza de que todos já assistimos a esse tipo de situações. Ainda há poucos dias se passou uma coisa do género, e até foi isso que me levou a escrever esta entrada.
Há blogs fantásticos. Há blogs com os quais tenho aprendido imenso. Há blogs que dão gozo ler só porque sim. Há blogs que nos permitem conviver mais de perto com pessoas que sempre admirámos à distância, e que enriquecem a relação que tínhamos com as obras dessa pessoa. Há também blogs de pessoas totalmente anónimas que escrevem e mantêm um blog só porque isso lhes dá um infinito gozo, e normalmente esse gozo transmite-se a quem o lê e segue.
Mas depois há os blogs da picardia, do insulto, da ofensa. Há os blogs da superficialidade, de escrever o primeiro disparate que vem à cabeça sem parar dois segundos a pensar no assunto. Os blogs da presunção, da vaidade. E esses por vezes tornam a blogosfera irrespirável. Há, desculpem o mau jeito, muita cretinice e imbecilidade. Sobretudo, dá-me cabo da paciência a leveza com que se diz uma imbecilidade, se insulta alguém, e depois a leveza com que isso é retirado, como se não tivesse importância nenhuma.

Claro que isso também acontece no livejournal. Mas por alguma razão parece menos grave. Talvez porque o livejournal funciona muito com espírito de comunidade, em que só entra quem quer, parece ser mais tolerável. O pessoal está na lista de amigos uns dos outros e isso de algum modo nos condiciona, atenua a ofensa e o ataque. Tenho de confessar que já algumas vezes tive textos escritos a atacar (por vezes com a minha verve mais verrinosa) posts de outros livejournals. Mas como tenho o hábito de escrever e deixar os textos a levedar um bocadinho antes de os pôr on-line, acabo sempre por apagá-los: para que é que eu vou atacar este gajo se amanhã me vou divertir muito com alguma coisa que ele vai escrever? Não vale a pena!
É por tudo isto que prefiro estar no livejournal. É por tudo isto que, quando me dá a vontade de apagar o innersmile e criar um blog na blogosfera, sento-me à espera que a vontade passe. Porque, afinal, o livejournal permite-me estar convencido que o innersmile não é um blog, mas apenas um caderno de apontamentos, um diário, que eu escrevo e mostro aos amigos.